"Você é negra, nasceu assim": ex-funcionária denuncia racismo na Toyota
No boletim de ocorrência registrado em 2024, Thainá afirma que era a única pessoa negra do setor onde trabalhava e que o tratamento recebido era diferente.

Os áudios entregues por Thainá ao G5News registram conversas atribuídas à profissional de Recursos Humanos.
Thainá Caroline dos Reis, de 29 anos, ex-funcionária da unidade da Toyota em Indaiatuba (SP) denuncia ter sido vítima de racismo, discriminação e assédio moral durante o período em que trabalhou na empresa. As acusações foram formalizadas em um boletim de ocorrência registrado na Polícia Civil de São Paulo e são acompanhadas por gravações de áudio, vídeos, documentos e um processo judicial que está em andamento.
A jovem afirma que os episódios começaram ainda em 2022, pouco tempo depois de sua contratação. De acordo com o relato, após sofrer um acidente de trabalho, ela passou a ser alvo de humilhações por parte da chefia. Mais tarde, segundo a denúncia, as situações evoluíram para episódios de discriminação racial praticados por um colega de trabalho e, posteriormente, para supostas tentativas de desencorajá-la a denunciar os fatos. A empresa já se mudou para a cidade de Sorocoba.
No boletim de ocorrência registrado em outubro de 2024, Thainá afirma que era a única pessoa negra do setor onde trabalhava e que o tratamento recebido era diferente dos demais funcionários. Segundo o documento, um colega cumprimentava todos os trabalhadores diariamente, mas a ignorava de forma deliberada. Ela também relata que, durante o expediente, ele se recusava a prestar o mesmo atendimento profissional que oferecia aos demais.
"Tenho sido vítima de discriminação racial no ambiente de trabalho, caracterizando um caso claro e reiterado de racismo. O tratamento degradante é direcionado exclusivamente a mim, a única pessoa preta no setor", relatou a jovem.
Ainda conforme o boletim, Thainá afirma ter comunicado o caso à liderança imediata, ao encarregado e ao supervisor. Mesmo após reuniões internas, ela sustenta que o comportamento teria continuado.
RH teria tentado impedir ação judicial
Além das acusações contra um colega, Thainá também relata que passou a sofrer pressão de uma profissional do setor de Recursos Humanos (RH) após procurar ajuda. Na segunda versão do boletim de ocorrência, ela afirma que foi coagida mediante ameaças de mudança de setor, alteração de horário e possível desligamento da empresa caso levasse o caso à Justiça.
Segundo a denúncia, a profissional teria dito: "Eu fui contratada para resolver problemas e você para não dar problemas."
Em outro trecho registrado no boletim, a funcionária afirma que ouviu a seguinte frase: "Entenda, você é negra. Você passou a vida inteira lidando com essa situação, porque desde pequena você já nasceu assim."
Áudios reforçam a denúncia
Os áudios entregues por Thainá ao G5News registram conversas atribuídas à profissional de Recursos Humanos. Em um dos trechos, a mulher tenta convencer a funcionária de que ingressar com uma ação judicial seria prejudicial. "Se você entra com processo contra a Toyota estando ativa, você provavelmente vai ser desligada [...] Jamais você vai conseguir provas."
Também argumenta que uma eventual denúncia poderia gerar consequências financeiras para a trabalhadora. "Você vai ganhar uma dívida de R$ 10 mil de custas processuais."
Em outro momento da gravação, a funcionária do RH afirma: "Passa por isso." E acrescenta: "Na Toyota a gente passa uma régua, deixa para trás e morre."
Transtornos psicológicos
Em entrevista concedida ao G5 News, Thainá afirma que o ambiente de trabalho agravou seu estado de saúde mental. Ela relata que sofreu uma forte crise de ansiedade dentro da empresa, caiu no chão, bateu a cabeça e precisou de atendimento médico.
Segundo ela, a médica do trabalho teria orientado que registrasse um boletim de ocorrência. "Ela falou: 'O que eu posso fazer é te ajudar com remédio, mas você tem que fazer um BO. O que eles estão fazendo com você é racismo.'"
Atualmente, Thainá afirma estar afastada do trabalho há cerca de dois anos. Segundo seu relato, faz tratamento psiquiátrico com medicamentos controlados e enfrenta dificuldades financeiras por não estar recebendo salário.
"Eles tiraram tudo de mim. Hoje, se eu quiser comprar uma bolacha para minha filha, preciso pedir ajuda para familiares."
A ex-funcionária afirma que ingressou com uma ação judicial contra a empresa e que o processo segue em tramitação. Segundo ela, já foi realizada perícia médica judicial, cujo laudo teria reconhecido incapacidade laborativa decorrente do quadro psicológico apresentado.
Ela também relata que enfrenta um impasse entre o INSS e a empresa sobre a responsabilidade pelo pagamento de seus benefícios durante o afastamento.
Posicionamento
Até a publicação desta reportagem, a Toyota do Brasil não havia se manifestado sobre as denúncias. O espaço permanece aberto para que a empresa apresente sua versão dos fatos.













