Uma decisão judicial determinou nesta segunda-feira (9) a suspensão imediata do concurso público da Câmara Municipal de Rio Verde, marcado para ser organizado pelo Instituto de Desenvolvimento Institucional Brasileiro (Idib). A medida atende a um pedido do Ministério Público de Goiás (MPGO) e decorre de uma investigação que vem abalando o legislativo municipal nas últimas semanas.
A suspensão ocorre no bojo da Operação Regra Três – Quarta Fase: Contrapartida, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado Sul (Gaeco Sul). O órgão apura a possível existência de uma organização criminosa atuando dentro da Câmara, com indícios de fraudes em contratações e desvios de recursos.
Provas e medidas judiciais
Além de interromper o certame, a decisão da Vara das Fazendas Públicas de Rio Verde ordena que o Idib divulgue em até 48 horas a lista completa de inscritos no concurso, garantindo acesso público às informações que até agora estavam restritas à “área do candidato”. Quem não cumprir a determinação pode enfrentar multa diária de R$ 1 mil, por até 30 dias.
A Justiça também mandou bloquear as contas bancárias que receberam taxas de inscrição, para evitar novas movimentações e facilitar a devolução integral dos valores aos candidatos prejudicados.
O juiz que assinou a ordem destacou nas suas razões que os fatos apontados pelo MPGO vão além de uma apuração criminal isolada, pois envolvem pessoas que já ocuparam posições estratégicas no processo de organização e fiscalização do concurso, o que, segundo o magistrado, “compromete de forma relevante a lisura do procedimento”.
O centro da investigação
A investigação do Gaeco Sul apura que um grupo de servidores e agentes públicos teria atuado em conjunto para direcionar contratações — um dos focos do inquérito é a ligação entre o Legislativo de Rio Verde e a empresa Instituto Delta Proto, que chegou a ser contratada para realizar um concurso anterior, também suspenso por suspeita de irregularidades.
No último mês, a operação levou à prisão preventiva do então presidente da Câmara Municipal, vereador Idelson Mendes (PRD), que também renunciou ao cargo em meio à crise. Segundo relatos de fontes jornalísticas locais, Mendes teria sido o principal articulador da aproximação entre a Câmara e o delegado Dannilo Proto, nome ligado à organização que supostamente participava do esquema.
Além do presidente afastado, dois servidores administrativos e dois advogados também foram alvo de medidas cautelares no âmbito da operação, que investiga indícios de dispensa de licitação irregular, favorecimento na contratação de bancas examinadoras e possíveis desvios de valores arrecadados com inscrições.
O papel do delegado Dannilo Proto
Um dos nomes que ganhou destaque nas apurações foi o do delegado Dannilo Proto, que está preso desde agosto de 2025 por suspeita de fraudes em contratações públicas e desvio de cerca de R$ 2,2 milhões em recursos destinados à educação em Rio Verde.
Reportagens recentes revelaram ainda que Proto chegou a ser flagrado com um celular dentro da cela, o que levantou questionamentos sobre a possibilidade de continuar mantendo contatos externos mesmo após a prisão — ponto que aumentou ainda mais o escrutínio público sobre a sua atuação.
A mulher de Proto, Karen Proto, também foi presa em janeiro como parte das fases anteriores da mesma operação, em um desdobramento que indicou a participação de familiares em supostas irregularidades investigadas pelo Ministério Público.
Repercussão e novo comando na Câmara
Com a saída de Idelson Mendes da presidência, o vice-presidente da Câmara, vereador Francisco Nunes de Moraes — conhecido como Cabo Moraes (PP) — assumiu o comando da Mesa Diretora de forma provisória. Em declarações públicas, Cabo Moraes afirmou que a prioridade é normalizar os trabalhos e colaborar com as investigações, ressaltando a importância de transparência administrativa diante da crise.
Entre candidatos ao concurso público e moradores de Rio Verde, a atuação dos órgãos de investigação foi pauta de debates nas redes sociais e em grupos locais, com muitos criticando a falta de transparência nos processos e exigindo que as responsabilidades sejam apuradas até suas últimas consequências.