Polícia prende advogados, médico e engenheiro por fraudes no benefício das vítimas do césio-137
Operação Césio 171 é conduzida pela Deic e cumpre sete mandados de busca e apreensão domiciliares e cinco mandados de prisão temporária na Região Metropolitana de Goiânia

Operação da Polícia Civil de Goiás, deflagrada na manhã desta quinta-feira (30), cumpre mandados de prisão e de busca e apreensão contra advogados, um médico e um engenheiro suspeitos de fraudar documentos para obter isenção de Imposto de Renda sob a justificativa de exposição ao césio-137 — o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear.
O prejuízo estimado causado aos cofres públicos pode ultrapassar R$ 79 milhões, segundo as investigações.
Batizada de Operação Césio 171, a ação é conduzida pela Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic), por meio do Grupo de Repressão a Roubos (Garra), com apoio da Gerência de Ações Estratégicas da Secretaria Estadual de Saúde. Ao todo, estão sendo cumpridos sete mandados de busca e apreensão domiciliares e cinco mandados de prisão temporária na Região Metropolitana de Goiânia. As cidades e os endereços onde as ações ocorrem não foram divulgados pelas autoridades.
De acordo com a Polícia Civil, o grupo teria atuado na falsificação de laudos e documentos médicos para garantir benefícios fiscais de forma irregular, em nome próprio e de terceiros, com base em uma suposta condição de saúde decorrente de exposição à radiação. As investigações apontam que, embora o dano potencial supere R$ 79 milhões, o prejuízo efetivamente comprovado até o momento é de cerca de R$ 1,7 milhão.
Os investigados poderão responder pelos crimes de estelionato contra a administração pública, associação criminosa e falsidade ideológica. Os nomes dos suspeitos não foram divulgados até a mais recente atualização desta matéria, e a reportagem não conseguiu localizar suas defesas para manifestação.
Contexto histórico
O caso faz referência direta ao acidente com o césio-137, ocorrido em setembro de 1987, em Goiânia. O incidente começou quando um aparelho de radioterapia abandonado em um hospital desativado foi recolhido por catadores de materiais recicláveis. Dentro do equipamento, havia uma cápsula contendo cloreto de césio-137, material altamente radioativo usado no tratamento de câncer.
Sem saber do risco, os envolvidos abriram o recipiente e manipularam o pó azul brilhante da substância, o que desencadeou uma das maiores tragédias radiológicas da história. Em poucos dias, o material foi espalhado por várias partes da cidade, levado para casas, lixões e até ingerido acidentalmente.
O resultado foi devastador: cerca de 249 pessoas foram contaminadas e quatro morreram em consequência direta da exposição. Durante 16 dias, moradores circularam entre bairros e municípios vizinhos, ampliando involuntariamente o alcance da radiação.
O episódio mobilizou o governo federal, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e equipes de saúde para a descontaminação de áreas, tratamento das vítimas e destinação de toneladas de materiais radioativos em locais de segurança. O acidente marcou profundamente a memória da capital goiana e tornou-se um dos símbolos das falhas de controle e descarte de equipamentos radiológicos no país.
Agora, quase quatro décadas depois, a própria tragédia volta ao centro de uma nova investigação — desta vez, não por conta da radiação, mas por supostos crimes cometidos em seu nome.

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