Padre goiano diz que é chefe de quadrilha e desviou R$100 milhões
A gravação, que teria sido feita pelo próprio padre durante reunião com advogados, foi apreendida pelo Ministério Público e usado para reabrir as investigações.

Em áudio atribuído ao padre Robson de Oliveira, investigado pelo desvio de R$ 100 milhões da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), em Trindade (27 km da Capital) e também pela suspeita de “compra de sentença” no valor e R$ 750 mil para “enterrar as investigações”, o religioso, supostamente, admite que planejava formas de burlar contratos para não ser pego pela polícia e ainda faz referência a si mesmo como o "chefe da quadrilha".
A gravação, que teria sido feita pelo próprio padre no celular durante reunião com advogados, foi apreendida pelo Ministério Público do Estado de Goiás (MPGO) e divulgado pelo Jornal da Record, na edição dessa quarta-feira (24).
Uma semana antes, na quarta (17), a Polícia Federal apresentou pedido de prisão preventiva contra o religioso e ex-funcionários, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), por suspeita de pagamento de propina a desembargadores e juízes do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO) para conseguir liminar para encerrar as investigações de desvio de dinheiro.
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Durante a reunião gravada, o padre e a equipe jurídica apresentaram propostas de como esconder a ilegalidade em contratos de empresas, que teriam sido feitos por terceiros em nome da Afipe. Eles se mostram preocupados, já que os contratos apresentavam ligações entre a associação e investimentos imobiliários, que seriam difíceis de serem explicadas.
Advogada (nome não identificado): Da representação nos negócios de investimentos na área imobiliária. Isso é muito ruim.
Advogado Klaus Marques: Quer dizer, eu estou assumindo que eles eram seus representantes nos negócios e investimentos na área imobiliária.
Advogada: E rádios.
Padre Robson: Isso não é bom.
Advogada: De jeito nenhum. Isso é a pior coisa que o senhor pode fazer.
Alessandra (funcionária da Afipe): Isso aqui é péssimo também. Investimentos na área imobiliária, tendo em vista tudo que, de fato, todo mundo sabe que eles fizeram, foi o quê? Um roubo, né?
Padre Robson: O povo tem essa ideia, né? […]
Alessandra: Está oficializando, está oficializando.
Padre Robson: […] Eu estou dando legitimidade para uma coisa ilegítima, porque eu considero que foi estelionato aquilo lá. Os caras lá já falavam: olha, você vai passar, por fora, para mim, tanto. Eu, de bobão… complicado isso aqui. Não está bom, não. Isso aqui é a mesma coisa de estar assinando um mandado de prisão.
Os materiais foram entregues durante a Operação Vendilhões, deflagrada em agosto de 2020, e que cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao religioso e à associação.
Em outro trecho do áudio, o advogado Klaus Marques diz que é perigoso os documentos ficarem no computador. O padre Robson responde dizendo que trocaria a placa do aparelho.
Advogado Klaus Marques: Padre, assim, eu vou pedir desculpas, mas é ilógico umas coisas aqui.
Padre Robson: Ô, gente. O meu medo nessas coisas aí chama-se apuração dos fatos. Quando for apurar fatos, olhando nossa contabilidade, olhando nossa contabilidade do Júnior, do Gleison, vão ver que eles deram outra destinação aos valores, que não bate com datas e nem com nenhum tipo de… Não tem jeito, gente.
Advogado Klaus Marques: Isso aqui é até perigoso ficar num computador.
Padre Robson: Eu estou dizendo é o seguinte. Eu não posso ter isso aqui no meu computador. Eu troco a placa desse “trem” aqui loguinho.
Advogado Klaus Marques: Se apreende esse computador… Olha esse tanto de contrato feito, mas não assinado.
Padre Robson: Contrato feito e tudo mais, né, gente? Eu estou enfiando a Afipe em um problema sério.
Segundo a reportagem da Record, a reunião durou cerca de uma hora. Em um momento da reunião, uma das funcionárias da associação alerta o padre para um possível desfecho da investigação: "Vai prender o senhor". Logo depois, o religioso demonstra o medo em ser preso.
Padre Robson: Deixa um delegado meio doido começar a fazer pergunta pesada. Aí, gente, eu vou falar para vocês uma coisa. Isso aí é crime organizado.
Advogado Klaus Marques: É crime organizado, e o senhor é o chefe.
Padre Robson: E eu sou o chefe da quadrilha.
A investigação, a qual se refere a funcionária, apura possíveis desvios de milhões recebidos através de doações de fiéis, feitas à Afipe, que seriam destinados à construção do novo Santuário Basílica de Trindade. O dinheiro, no entanto, serviu para compras de fazenda e imóveis de luxo.
No entanto, essa investigação foi paralisada pelo STJ, que entendeu que houve ilegalidade no compartilhamento de dados pelo MPGO, que deflagrou a Operação Vendilhões.
Outro lado
O advogado do padre Cleber Lopes disse que não vai se manifestar sobre o áudio. Já o advogado Klaus Marques, que aparece na gravação, alegou desconhecer os fatos citados na renião e que a Afipe sempre agiu dentro da legalidade.
A associação afirmou que não tem ligação com nenhum dos envolvidos na reportagem. O STJ informou que não se manifesta sobre processos que estão em segredo de Justiça "sob pena de prejuízo ao andamento das investigações".
Ouça o áudio completo divulgado pelo Metrópoles

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