Senado aprova que médicos terão que fazer prova de "capacidade" depois de formados
A nova avaliação nacional representa uma mudança significativa nas regras de validação da formação médica, além de fortalecer o controle de qualidade no exercício da profissão

O Senado Federal aprovou, por 11 votos a 9, nesta quarta-feira (3), o Projeto de Lei 2.294/2024, que cria o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (Profimed) — apelidado de “OAB da Medicina”. A proposta, de autoria do senador Astronauta Marcos Pontes (PL-SP), estabelece uma prova nacional obrigatória para validar a formação médica antes do exercício profissional.
A medida é defendida como uma forma de elevar o padrão da formação no país e conter o avanço de profissionais considerados despreparados. Para os críticos, porém, a responsabilidade pela qualidade do ensino não pode ser reduzida a uma avaliação final.
Argumentos a favor
Durante a discussão em plenário, Dr. Hiran Gonçalves (PP-RR) afirmou que o exame surge como resposta ao aumento de casos de má conduta profissional. Segundo ele, permitir que recém-formados sem preparação atuem na rede de saúde coloca vidas em risco.
“Alguém que vai zelar por nosso maior bem, que é a nossa saúde e nossa vida, tem que estar absolutamente preparado — e isso não está acontecendo”, declarou.
O senador citou como exemplo o caso da Clínica Santa Júlia, onde uma criança morreu durante atendimento. Segundo Hiran, o episódio expõe falhas graves de capacitação.
“Infelizmente a médica não estava preparada para um ambiente de emergência, que exige raciocínio rápido e experiência. Aquela família que perdeu a criança certamente torce pela aprovação dessa prova”, disse.
Autor do projeto, Marcos Pontes reforçou que o país enfrenta um cenário preocupante, com aumento do número de profissionais formados sem a base necessária.
“Precisamos de uma solução urgente. Esse exame é um ponto de inflexão para frear o crescimento da incompetência no setor”, argumentou.
A senadora Dra. Eudócia (PL-AL) destacou indicadores considerados alarmantes: o crescimento de 506% nas ações judiciais por “êrro médicø” em 2024 e a expansão do setor privado de ensino médico, que movimenta R$ 26,4 bilhões ao ano.
“Não é só formar médicos; é formar médicos competentes”, afirmou.
“O ensino médico virou um mercado bilionário, sem garantia de qualidade.”
Críticas ao projeto
Contrária à proposta, a senadora Zenaide Maia (PSD-RN) defendeu que a avaliação da formação médica deve ocorrer ao longo dos seis anos de curso, e não apenas por meio de uma prova final.
“Quando fiz medicina, a avaliação era contínua. Muitos sequer concluíam o curso por reprovação. Isso não pode ser comparado com um exame único ao final”, afirmou.
Ela reconheceu a importância de mecanismos de avaliação, mas criticou a transferência de responsabilidades para entidades profissionais.
“Quem defende a vida não pode correr atrás apenas desse exame. Falta investimento em saúde. A responsabilidade pela qualidade é do MEC, não de conselhos profissionais”, declarou.
Voto separado derrotado
O senador Rogério Carvalho (PT-SE) apresentou voto separado propondo a formalização do Enamed, já aplicado em caráter avaliativo, mas sem transformar o Profimed em requisito para atuação. A alternativa foi derrotada.
Próximos passos
Com a aprovação, o texto segue para as etapas seguintes no processo legislativo. A matéria será encaminhada à Secretaria-Geral da Mesa, que dará sequência aos trâmites para a implementação do Profimed.
O debate deve continuar nos próximos meses, especialmente entre instituições de ensino, conselhos profissionais, estudantes e entidades médicas, em meio à disputa entre a defesa da qualidade da formação e a crítica ao que opositores chamam de “excesso de burocratização”.

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