PF: Metade da Assembleia Legislativa do Rio tem ligação com facções ou milícias
Segundo agentes que atuam diretamente no caso, a Alerj é vista, dentro da corporação, como a "casa institucionalizada do crime".

As investigações da Polícia Federal sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes desvendaram um cenário alarmante de infiltração criminosa no poder legislativo fluminense: pelo menos metade dos deputados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) teria ligações diretas com o crime organizado, seja com milícias, seja com facções do tráfico de drogas.
A revelação, que emerge cinco anos após o brutal crime, expõe uma rede de corrupção e violência que se entranha nas instituições públicas do estado.
Dentro da corporação, a Alerj é vista como a "casa institucionalizada do crime", segundo agentes que atuam diretamente no caso. A percepção é de que uma parcela significativa das propostas legislativas não visa ao interesse da população, mas sim à proteção e expansão de atividades ligadas a organizações criminosas. "As demandas da população em geral ficam em quinto plano, pois não rendem dinheiro", afirmou um dos policiais envolvidos nas apurações, sublinhando a prioridade dada aos interesses ilícitos.
As investigações detalham que gabinetes de deputados, de diferentes espectros políticos, abrigam representantes diretos do crime organizado. Essas pessoas, muitas vezes nomeadas oficialmente para cargos comissionados, desempenham um papel ativo: acompanham projetos de lei, interferem em votações e atuam para barrar propostas que ameacem os interesses de milicianos e traficantes. Há também relatos de que esses mesmos agentes são usados para intimidar opositores políticos e servidores públicos, criando um ambiente de temor e coação.
A Polícia Federal está em um processo minucioso de cruzamento de dados colhidos nas investigações do caso Marielle com informações sobre processos legislativos parados, "esquecidos" ou alterados sem justificativa aparente. O objetivo é mapear como os interesses criminosos são atendidos dentro da Assembleia e qual o nível de influência sobre o Executivo estadual, prefeituras e até o Judiciário. "Está tudo muito ramificado", disse outro investigador, expressando a complexidade da teia criminosa. "Por isso, não há interesse em nenhuma das pontas para que as investigações avancem."
Apesar da magnitude do desafio, os policiais federais reconhecem que não será possível desarticular todos os esquemas, mas acreditam que há condições de atingir figuras de alto escalão envolvidas com o crime. Para isso, destacam a necessidade de um empenho institucional robusto de órgãos como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Ministério da Justiça. "Sabemos que não acabaremos com tudo, mas podemos chegar a algumas cabeças coroadas dessas organizações", afirmou outro agente, indicando a estratégia de focar nos líderes.
O caso Marielle Franco, que completa cinco anos de impunidade em relação aos mandantes, segue sendo uma peça central para a PF na revelação de uma rede de corrupção e violência que transcende o submundo e se entrelaça profundamente com as instituições públicas do Estado do Rio de Janeiro, evidenciando a fragilidade democrática diante do poder do crime organizado.

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