Morre Manoel Carlos, o Eterno Criador das "Helenas", aos 92 anos
A maior marca de sua carreira foi, sem dúvida, a criação das "Helenas". Mulheres fortes, complexas e imperfeitas

O Brasil se despede hoje de um de seus maiores contadores de histórias. Morreu neste sábado (10), aos 92 anos, o autor Manoel Carlos, carinhosamente chamado de Maneco. O novelista, que estava internado em um hospital na Zona Sul do Rio de Janeiro, enfrentava complicações decorrentes da doença de Parkinson e vivia de forma reclusa nos últimos anos.
A confirmação veio através de uma nota oficial emitida pela produtora Boa Palavra, que destacou o desejo da família por privacidade:
"É com profundo pesar que comunicamos o falecimento de Manoel Carlos Gonçalves de Almeida [...] O velório será fechado e restrito à família e amigos íntimos. A família agradece as manifestações de carinho e solicita respeito neste momento delicado."
O Cronista do Leblon
Manoel Carlos não escrevia apenas novelas; ele pintava retratos do cotidiano. Sua marca registrada era a ambientação no bairro do Leblon, transformando as ruas arborizadas da Zona Sul carioca em personagens vivos de suas tramas. Com um texto refinado e focado em dilemas humanos, Maneco consagrou-se como o mestre do gênero "crônica de costumes" na televisão brasileira.
O Legado das Helenas
A maior marca de sua carreira foi, sem dúvida, a criação das "Helenas". Mulheres fortes, complexas e imperfeitas, que personificavam os sacrifícios e as paixões da maturidade feminina. Entre suas obras mais icônicas, destacam-se:
• Por Amor (1997): Com a icônica Helena de Regina Duarte, que trocou o próprio neto pelo filho morto da filha.
• Laços de Família (2000): Onde Vera Fischer viveu a mãe que abriu mão de seu amor e lutou contra a leucemia da filha.
• Mulheres Apaixonadas (2003): Uma trama que parou o Brasil ao abordar temas sociais latentes através da Helena de Christiane Torloni.
• Em Família (2014): Sua última obra antes da aposentadoria, encerrando o ciclo com Júlia Lemmertz.
Carreira e Aposentadoria
Maneco iniciou sua trajetória ainda nos primórdios da TV brasileira, passando por grandes emissoras e consolidando-se na TV Globo, onde escreveu sucessos que atravessaram gerações. Ele se despediu das telas em 2014, após concluir Em Família, decidindo dedicar-se ao descanso e à família em sua residência no Rio.
Sua partida deixa uma lacuna irreparável na cultura nacional, mas seu legado permanece vivo em cada diálogo cotidiano e em cada trilha sonora de Bossa Nova que embalou suas manhãs fictícias no Leblon.
Aqui tens uma lista com as curiosidades mais fascinantes sobre a vida e a carreira de Manoel Carlos, que ajudam a entender por que ele se tornou um mito da nossa televisão:
1. A Origem das "Helenas"
Ao contrário do que muitos pensam, o nome não foi uma homenagem a uma namorada ou parente. Maneco revelou que a escolha veio da sua paixão pela mitologia grega, especificamente por Helena de Troia. Para ele, o nome evocava uma mulher forte, independente e, acima de tudo, imperfeita. Curiosamente, ele teve duas filhas e nenhuma se chama Helena.
2. O "Helenaverso"
• A Primeira: Lílian Lemmertz foi a pioneira em Baila Comigo (1981).
• A Recordista: Regina Duarte foi a única a viver a personagem três vezes (História de Amor, Por Amor e Páginas da Vida).
• O Encerramento: Julia Lemmertz, filha de Lílian, fechou o ciclo na última novela do autor, Em Família (2014), como uma homenagem à sua mãe.
3. Ele não era Carioca
Apesar de ser o "embaixador do Leblon", Manoel Carlos nasceu no bairro do Pari, em São Paulo. Ele mudou-se para o Rio de Janeiro na década de 1950 e apaixonou-se pelo estilo de vida da Zona Sul, tornando-o o cenário principal de quase todas as suas obras.
4. O Onipresente "Dr. Moretti"
Além das Helenas, Maneco tinha outra marca registada: o Doutor Moretti. Em quase todas as suas novelas, havia um médico bondoso e amigo da família com esse nome, funcionando como um porto seguro para os dramas dos protagonistas.
5. Escrevia à mão (e com humor)
Maneco era conhecido pelo seu método tradicional. Durante anos, escreveu os seus roteiros à mão ou em máquinas de escrever. Uma curiosidade de bastidores que circulava entre fãs era que, mesmo quando passou para o computador, ele teria uma predileção pela fonte Comic Sans para redigir os seus textos.
6. Impacto Social Real
As suas novelas não eram apenas ficção. Em Laços de Família, a cena de Camila (Carolina Dieckmann) a rapar o cabelo devido à leucemia causou um aumento recorde nas doações de medula óssea no Brasil na época, provando o poder educativo das suas tramas.
7. O Prato Favorito no Leblon
Frequentador assíduo da Livraria Argumento, no Leblon, o seu prato favorito no café do local era o penne com atum. Ele gostava tanto da receita que a incluiu na novela Laços de Família, como o prato principal do restaurante da personagem Miguel (Tony Ramos).
8. Tragédias Pessoais
Infelizmente, a vida de Maneco foi marcada por grandes perdas. O autor sobreviveu à morte de três dos seus cinco filhos: Ricardo (em 1988, por complicações da SIDA), Manoel Carlos Júnior (em 2012, de ataque cardíaco) e Pedro (em 2014, de mal súbito aos 22 anos).
9. Estreia como Ator
Antes de ser um autor consagrado, ele começou a sua carreira à frente das câmaras. Na década de 1950, atuou no Grande Teatro Tupi, ao lado de lendas como Fernanda Montenegro e Nathália Timberg.
Manoel Carlos partiu, mas o seu "Leblon idealizado" e as suas Helenas inesquecíveis garantiram-lhe a imortalidade na cultura brasileira.

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