Enquanto demais crimes seguem em queda histórica, feminicídios acendem alerta em Goiás
De acordo com o secretário de Segurança Pública, cerca de 75% dos feminicídios foram registrados em ambientes internos, principalmente dentro das residências

Os dados consolidados da segurança pública em 2025 mostram queda expressiva em praticamente todos os principais indicadores criminais em Goiás. No entanto, um índice destoou da curva de redução: o feminicídio, que apresentou crescimento de 6% em relação a 2024, segundo informações do Ministério da Justiça e da Secretaria de Segurança Pública do Estado.
De acordo com o secretário Renato Brum, foram registrados 59 feminicídios em 2025. Nos três anos anteriores, 2022, 2023 e 2024, o número havia se mantido estável, com 56 casos anuais.
“É o único dos índices criminais que teve acréscimo no último ano. Infelizmente, ainda não encontramos a fórmula ideal para erradicar esse tipo de crime, que é um desafio não apenas de Goiás, mas de todo o país”, afirmou.
Crimes cometidos dentro de casa
Um dado que chama atenção, segundo o secretário, é o local onde a maioria dos crimes ocorre. Cerca de 75% dos feminicídios foram registrados em ambientes internos, principalmente dentro das residências. “A segurança pública não consegue fazer patrulhamento dentro de casa. Nós não temos como estar presentes no interior das residências, e isso torna o enfrentamento desse tipo de violência ainda mais complexo”, explicou.
Dos 59 casos registrados em 2025, apenas sete vítimas possuíam medida protetiva em vigor, o que evidencia as dificuldades de identificação prévia de situações de risco e de intervenção antes que a violência atinja seu estágio mais extremo.
Caso atípico e contexto nacional
O secretário também destacou que parte do aumento foi influenciada por situações específicas, como os casos atípicos registrados em Rio Verde, envolvendo um serial killer. “Tivemos uma ocorrência fora da curva, que impactou diretamente o fechamento do ano. Ainda assim, é um crime que precisa ser enfrentado de forma integrada por toda a sociedade”, ressaltou.
Brum lembrou que, apesar do leve crescimento, Goiás conseguiu, nos últimos anos, conter a escalada que havia sido observada durante o período da pandemia, quando o confinamento provocou aumento expressivo da violência doméstica. “Quebramos aquela curva de crescimento e agora trabalhamos para voltar a registrar reduções também nesse indicador”, afirmou.
Integração entre poderes
Para o governador Ronaldo Caiado, os números precisam ser analisados de forma compartilhada entre as instituições. Ele ressaltou que, apesar do aumento pontual, Goiás é reconhecido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública como o estado com os menores índices de feminicídio dos últimos anos.
“O enfrentamento ao feminicídio não pode ser atribuído exclusivamente às forças de segurança. É necessária a integração do Ministério Público, do Judiciário, da Defensoria Pública e da área social do governo. A responsabilidade é coletiva, especialmente na prevenção”, destacou.
Estrutura de proteção e prevenção
Goiás, que foi o primeiro do país a criar o Batalhão Maria da Penha, conta hoje com quatro unidades especializadas distribuídas em diferentes regiões. Também houve expansão das Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher, implantação de aplicativos de proteção e aumento do acompanhamento de medidas protetivas, que cresceu 24% em 2025.
Quadro geral de queda
O aumento pontual dos feminicídios ocorre em um contexto de forte redução da criminalidade em Goiás. Em 2025, o estado registrou queda de 16% nos homicídios dolosos em relação a 2024 e de 62% na comparação com 2018. Os crimes patrimoniais violentos também apresentaram reduções históricas, como o roubo de veículos, o roubo a transeunte e o roubo de cargas.
As forças de segurança ampliaram ações de prevenção, inteligência e repressão qualificada, além de investimentos em tecnologia e integração operacional. Ainda assim, conforme ressaltam as autoridades, a violência doméstica permanece como um dos maiores desafios da política de segurança pública, justamente por ocorrer, em sua maioria, dentro do ambiente familiar, onde a presença do Estado é limitada e a atuação depende, sobretudo, de denúncias, acompanhamento social e articulação entre os poderes.

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