Crianças de 5 anos estão surtando e sendo internadas pelo uso de celular
Entre os efeitos associados ao uso intenso de dispositivos estão déficit de atenção, distúrbios do sono, aumento da agressividade, isolamento social e atraso no desenvolvimento infantil

Pesquisas recentes publicadas na revista científica JAMA Pediatrics acenderam um alerta sobre o impacto do uso prolongado de celulares e outros dispositivos digitais no cérebro de crianças. Os estudos indicam que a exposição excessiva às telas pode afetar o córtex pré-frontal — região responsável por funções como raciocínio, planejamento, autocontrole e tomada de decisão.
Entre os efeitos associados ao uso intenso de dispositivos estão déficit de atenção, distúrbios do sono, aumento da agressividade, isolamento social e atraso no desenvolvimento infantil. Especialistas têm usado o termo “abandono digital” para se referir a situações em que a criança aparenta estar calma e entretida diante de uma tela, mas, na prática, está exposta a riscos significativos para a saúde mental e para o desenvolvimento global.
Córtex pré-frontal em desenvolvimento é mais vulnerável
A infância é um período em que o cérebro passa por intensa formação de conexões neurais. O córtex pré-frontal, em particular, segue em amadurecimento ao longo de toda a infância e adolescência. Pesquisas citadas pela JAMA Pediatrics sugerem que estímulos digitais constantes — principalmente quando envolvem uso passivo e prolongado — podem interferir nesse processo.
Os estudos apontam alterações funcionais em regiões relacionadas à atenção, à capacidade de inibir impulsos e à regulação emocional. A exposição frequente a conteúdos rápidos, coloridos e altamente recompensadores pode contribuir para uma espécie de “treinamento” do cérebro para buscar gratificação imediata, em detrimento de tarefas que exigem concentração contínua e paciência.
Déficit de atenção, sono irregular e agressividade
Entre os efeitos observados por pesquisadores e relatados por profissionais da área de saúde estão quadros de desatenção, dificuldade de concentração e problemas para manter o foco em atividades escolares. Crianças com uso intenso de telas tendem a alternar rapidamente entre estímulos, o que pode se refletir em dificuldade para acompanhar aulas, ler textos mais longos ou concluir tarefas.
Os distúrbios do sono também aparecem de forma recorrente. A luz emitida por telas, sobretudo à noite, pode interferir na produção de melatonina, hormônio ligado à regulação do ciclo sono-vigília. Em consequência, crianças demoram mais para dormir, apresentam sono fragmentado ou acordam cansadas, o que agrava problemas de humor e atenção ao longo do dia.
Alterações comportamentais, como maior irritabilidade e agressividade, também são descritas. Em alguns casos, a reação ocorre especialmente quando o acesso ao dispositivo é limitado ou interrompido, o que sugere uma relação de dependência com o uso das telas.
Isolamento e atraso no desenvolvimento social e emocional
A socialização é outro ponto de preocupação. Quando grande parte do tempo livre é ocupada por celulares, tablets ou videogames, o convívio presencial com outras crianças e adultos tende a diminuir. Pesquisas associam esse padrão a maior isolamento, dificuldades nas habilidades sociais e menor participação em brincadeiras coletivas.
Esse cenário pode contribuir para atrasos na aquisição de competências importantes, como aprender a lidar com frustrações, negociar regras, partilhar objetos e desenvolver empatia. Especialistas ressaltam que experiências concretas — como brincar ao ar livre, interagir com colegas e participar da rotina familiar — são fundamentais para o desenvolvimento emocional e social, e não podem ser substituídas por interações mediadas exclusivamente por telas.
“Abandono digital”: criança quieta, problema invisível
O conceito de “abandono digital” vem sendo discutido por profissionais de saúde e educação para descrever uma forma de negligência menos evidente. Diferentemente do abandono físico, em que a ausência de cuidado é visível, o abandono digital ocorre quando a criança permanece longos períodos sozinha, entretida por dispositivos eletrônicos, sem supervisão adequada e com pouca interação significativa com adultos.
Nesses casos, a aparente tranquilidade — a criança “comportada”, silenciosa, que não interrompe os pais enquanto está com o celular — pode mascarar riscos importantes. A falta de limite de tempo, a ausência de acompanhamento do conteúdo e a substituição de brincadeiras e conversas presenciais por consumo digital contínuo compõem um ambiente que, segundo especialistas, favorece problemas de saúde mental.
Psicólogos e pediatras alertam que, embora as telas possam ser usadas como ferramenta de entretenimento ou educação, quando se tornam o recurso principal ou quase exclusivo de interação, podem contribuir para quadros de ansiedade, tristeza, irritabilidade e dificuldades de vínculo.
Limites, supervisão e alternativas fora das telas
Diante dos riscos apontados pelas pesquisas, especialistas defendem a adoção de limites claros e rotinas consistentes relacionadas ao uso de dispositivos digitais. Entre as recomendações mais frequentes estão: evitar o uso de telas durante as refeições, antes de dormir e em momentos de convívio em família; restringir o tempo de uso diário, principalmente entre crianças menores; e acompanhar o conteúdo acessado, privilegiando materiais adequados à idade.
Outra orientação é oferecer alternativas de lazer fora do ambiente digital, como brincadeiras ao ar livre, leitura, jogos de tabuleiro, atividades artísticas e esportes. A participação ativa de pais e responsáveis nessas atividades é apontada como um fator de proteção importante, tanto para o desenvolvimento emocional quanto para a construção de vínculos mais fortes.
Embora as pesquisas destacadas pela JAMA Pediatrics não descartem o uso de tecnologia na infância, o consenso entre especialistas é que a exposição precisa ser equilibrada, planejada e, sobretudo, mediada por adultos. A presença e o envolvimento dos cuidadores são considerados decisivos para que o ambiente digital não se torne um espaço de abandono silencioso, mas sim um recurso usado com critério e em benefício do desenvolvimento das crianças.

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