Controle do javali atinge nível histórico com mais de 500 mil animais mortos em 2024
Entre janeiro e agosto, 511.466 animais foram mortos sob autorização oficial — o maior número desde o início do monitoramento.

Dados do Sistema de Informação de Manejo de Fauna (Simaf), do Ibama, obtidos com exclusividade pelo portal Brasil 61, revelam que o Brasil registrou um recorde no abate de javalis em 2024. Entre janeiro e agosto, 511.466 animais foram mortos sob autorização oficial — o maior número desde o início do monitoramento.
O volume de abates declarados, informados voluntariamente por controladores cadastrados no sistema, cresceu 465% desde 2020, quando foram registrados 90.528. No acumulado dos últimos quatro anos, o total chega a 1,71 milhão de javalis abatidos.
Para o professor Paulo Bezerra, coordenador de capivaras e javalis da USP/ESALQ-LOG, os números reais podem ser até cinco vezes maiores. Segundo ele, caçadores raramente registram todos os animais abatidos por autorização válida por seis meses.
“Os relatórios são declaratórios. Muitos abatem 10, 20, 30 ou até 50 javalis, mas informam apenas 1 ou 2”, afirma.
Bezerra ressalta que o controle da espécie no Brasil depende da caça, já que o javali, originário da Europa e Ásia, não possui predadores naturais no país e se reproduz rapidamente. A infestação é mais severa no Centro-Sul, onde o animal causa prejuízos ambientais e econômicos.
Impactos em Mato Grosso do Sul e Santa Catarina
Em Mato Grosso do Sul, a expansão dos javalis provoca estragos em lavouras de milho, soja e cana, além de pastagens, áreas turísticas e margens de rios.
Segundo Fernanda Lopes de Oliveira, consultora técnica da Famasul, o animal representa risco sanitário a várias cadeias produtivas por potencialmente transmitir doenças.
A federação defende ações integradas entre setor produtivo, iniciativa privada e governo, além de investimentos em pesquisa para mapear com maior precisão a presença da espécie. A Assembleia Legislativa do estado discute um projeto de lei para classificar oficialmente o javali como praga e intensificar o combate.
No oeste de Santa Catarina, a Embrapa Suínos e Aves acompanha a expansão dos animais e os riscos relacionados. “A invasão pode contaminar ambiente, solo e água, disseminando patógenos que atingem animais e humanos”, explica a pesquisadora Virgínia Santiago.
Regras de controle e debate no Congresso
O controle da espécie é regulamentado por norma técnica do Ibama desde 2013. Para atuar, é necessário obter autorização e registro como controlador. Alguns estados também editaram normas próprias, como São Paulo e, mais recentemente, Minas Gerais.
Rafael Salermo, fundador da Associação Brasileira de Caçadores Aqui Tem Javali, critica o que considera excesso de fiscalização sobre caçadores e pede maior apoio das autoridades.
“O produtor rural não deixaria qualquer pessoa entrar armada em sua propriedade. O caçador é alguém de confiança e precisa de respaldo para fazer esse controle”, argumenta.
Na Câmara dos Deputados, o deputado Alceu Moreira (MDB-RS) propôs que estados e municípios passem a ter competência para combater espécies invasoras e que sejam flexibilizadas regras para comercialização de produtos usados no controle.
A proposta está na Comissão de Saúde, e a Frente Parlamentar da Agropecuária pretende votar a urgência para levar o texto ao plenário ainda neste ano.

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