Câncer de boca

O câncer de boca é uma doença muito agressiva, que causa sequelas graves e está muito relacionado ao fumo. Entretanto, em um grupo específico de pessoas, com menos de 40 anos e não fumante, ele pode ser ainda mais agressivo e mutilador. Não que o cigarro deixa a doença menos grave ou atrase seu desenvolvimento.
É que, no contexto biológico, se uma pessoa desenvolve esse tumor sem uma causa específica, como o cigarro, isso significa que as células que deram origem à lesão têm uma facilidade maior para formar o câncer e também são mais agressivas, geralmente fazendo o paciente perder a vida ou deixando ele com mutilação muito séria.
Assim, chama a atenção tentar saber por que nesses pacientes esse tumor tem esse comportamento e qual é o motivo dessa lesão ser tão agressiva?
Pesquisadores do Memorial Sloan Kettering Cancer Center de Nova York, nos Estados Unidos, e do Rabin Medical Center, da Universidade de Tel Aviv, em Israel, tentam responder essa pergunta em um artigo publicado na edição online de abril na revista Oral Oncology. Nessa pesquisa, os autores compararam pouco mais de dois mil pacientes que foram divididos em quatro grupos.
Fumantes com 40 anos de idade ou menos, não fumantes com 40 anos de idade ou menos, fumantes com mais de 40 anos de idade, não fumantes com mais de 40 anos idade que foram diagnosticados com Carcinoma Epidermóide de Boca entre os anos de 1985 e 2015.
Os pesquisadores mostram que 9% dos casos dessa doença são em pacientes jovens, aqueles que têm menos de 40 anos. Se forem considerados os jovens e fumantes, essa porcentagem cai para menos de 5%.
Mesmo representando um número menor de pessoas nesse grupo, os pacientes jovens não fumantes com câncer de boca desenvolvem lesões mais agressivas e mutiladores, de tratamento mais difícil. Assim, a mortalidade e morbidade são maiores.
Os autores da pesquisa observaram que, neste grupo específico, o sistema imunológico era mais debilitado, ou seja, a quantidade de células de defesa era consideravelmente menor que nos outros grupos da pesquisa.
Esse estudo ajuda a entender um pouco do comportamento biológico do câncer de boca em pacientes jovens e serve para orientar a população. Como essa lesão é extremamente agressiva, é importante tomar os cuidados necessários para prevenção e diagnóstico precoce a fim de evitar as piores consequências para os pacientes.
Assim, os pacientes devem manter uma higiene de boca satisfatória e, principalmente, fazer consultas periódicas ao dentista que sempre tem que avaliar com cuidado todas as estruturas da boca, como gengiva, língua, céu da boca, a parte interna da bochecha e a garganta também, além dos dentes.
E vale mais um alerta. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que pouco mais de 15 mil pessoas serão diagnosticadas com câncer de boca nesse ano, com uma prevalência de pouco mais de sete casos para cada grupo de 100 mil pessoas. Em Mato Grosso, a estimativa é que aconteçam aproximadamente 230 casos apenas esse ano. Estudos mostram que esse tipo de tumor em pacientes jovens representa pouco mais de 10% do total dessas lesões. Se forem considerados os jovens e não fumantes, essa porcentagem cai para menos de 5%.
Por fim, mesmo que os números pareçam baixo, as consequências podem ser irreversíveis.
Arlindo Aburad é dentista, patologista bucal.

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