Desconstrução da polidez em o Deus da Carnificina
A peça dirigida por Rodrigo Portella transforma o espaço familiar em um palco de conflito e vulnerabilidade.
A peça O Deus da Carnificina, de Yasmina Reza, expõe quatro adultos em uma sala, lidando com um conflito entre seus filhos. A premissa parece simples, mas rapidamente se transforma em um estudo sobre a fragilidade das normas sociais.
Dirigida por Rodrigo Portella e apresentada no Teatro TotalEnergies, a encenação altera a atmosfera inicial de uma sala de estar burguesa. As paredes nuas e a estrutura exposta do teatro desafiam a ideia de segurança familiar, revelando um laboratório onde a verdadeira natureza dos personagens é desmascarada.
O espaço cênico é coberto com grama sintética, que traz à tona questões de artificialidade e domesticidade. Essa escolha irônica transforma o ambiente em uma arena de disputas, sugerindo que os adultos estão tão longe da racionalidade quanto as crianças que eles tentam proteger.
A ordem aparente do cenário se deteriora ao longo da peça. O espaço, que começa organizado, se torna um reflexo do caos interno dos personagens, simbolizado por um carrinho de sorvete que substitui a previsível sobremesa francesa. Essa troca representa a desestabilização emocional que ocorre durante a resolução do conflito.
Os personagens são desnudados emocionalmente, e a imaturidade deles é enfatizada pelo sorvete derretendo. O derretimento do picolé revela a fragilidade do controle que eles tentam manter diante da situação. A encenação é um convite para observar a natureza animal que reside em cada um, escondida sob a polidez social.
Com mais de noventa minutos de representação, a peça apresenta uma visão crua sobre as relações humanas. A mensagem central reside na crítica ao comportamento civilizado, que pode se dissolver rapidamente diante de conflitos, mostrando o lado mais primitivo do ser humano em situações de pressão.

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