TRF condena Bolsonaro a pagar R$ 1 milhão por racismo
Bolsonaro é acusado de fazer manifestações públicas de juízo depreciativo sobre cidadão negro, ao comparar cabelo com criatório de “baratas”

Terceira Turma do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) tomou uma decisão emblemática, na manhã desta terça-feira (16), ao condenar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) a pagar R$ 1 milhão em indenização por danos morais coletivos, em decorrência de declarações consideradas racistas. A polêmica em torno das falas de Bolsonaro, que ocorreram tanto em seu programa de live nas redes sociais quanto em eventos presenciais, reacendeu debates sobre racismo no Brasil, particularmente no que tange a manifestações políticas e a linguagem de figuras públicas.
O Caso
A condenação surge a partir de comentários feitos por Bolsonaro em relação a um apoiador negro com cabelo black power, durante um evento nas proximidades do Palácio da Alvorada. Recursos do caso indicam que, ao se dirigir ao jovem Maicon Sulivan, que se autodenomina “Black Power do Bolsonaro”, o ex-presidente fez afirmações que incluíam: “Criatório de baratas”, “Olha o criador de baratas. Como tá essa criação de baratas?” e “Você não pode tomar ivermectina, vai matar todos os seus piolhos”.
O relator da apelação, desembargador federal Rogério Favreto, caracterizou as declarações como “ato de racismo recreativo”, sublinhando que tais comportamentos potencializam estigmas e ofensas a indivíduos baseados em características raciais. Favreto explicou que as injúrias proferidas por Bolsonaro, embora apresentadas sob o disfarce de humor, perpetuavam a desumanização histórica de pessoas negras e contribuem para a continuidade de preconceitos enraizados na sociedade.
Legado e Implicações
“Comportamentos e manifestações aparentemente desprovidos de intenções muitas vezes potencializam a estigmatização”, afirmou Favreto. O magistrado também ressaltou que o fato de o próprio apoiador de Bolsonaro minimizar os comentários não diminui o impacto das ofensas na sociedade em geral. “A gravidade da ofensa é inequívoca. Reproduzem-se ofensas raciais em sociedade historicamente marcada pelo racismo.”
Além de Bolsonaro, o TRF-4 também determinou que a União fosse condenada ao mesmo valor de indenização. A procuradora regional da República, Carmem Elisa Hessel, defendeu publicamente que as falas de Bolsonaro reforçam estigmas prejudiciais às identidades culturais da população negra, contribuindo assim para a manutenção de relações sociais desiguais.
Defesa de Bolsonaro
A reação da defesa de Bolsonaro, capitaneada pela advogada Karina Kufa, argumentou que as declarações feitas pelo ex-presidente não poderiam ser consideradas racistas, mas sim uma simples brincadeira sobre uma característica física. Segundo Kufa, as declarações nunca abordaram questões de inferioridade, mas sim, estavam ligadas ao comprimento do cabelo do apoiador.
Perspectivas de Futuro
Este julgamento marca um importante arco na luta contra o racismo institucional no Brasil, levantando questões sobre a responsabilidade de figuras públicas na promoção de um discurso que respeite a dignidade de todos. O Ministério Público Federal (MPF) também pediu uma campanha publicitária nacional de combate ao racismo, sugerindo um investimento mínimo de R$ 10 milhões. Este pedido ressalta a urgência de se enfrentar o preconceito de maneira sistemática e institucional.
Enquanto o debate sobre as falas de Bolsonaro continua, a decisão do TRF-4 é uma clara demonstração de que o racismo, mesmo quando travestido de humor, não será mais tolerado pela Justiça. Com os efeitos dessa condenação, espera-se que a sociedade brasileira reflita profundamente sobre o racismo e as repercussões que podem searrastar em diversas camadas da população.

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