PF indicia funcionários de padre e aponta desembargadores em esquema
A PF alega que o padre Robson de Oliveira e funcionários da Afipe desviaram cerca de R$ 100 milhões em doações de fiéis e pagaram propina para encerrar investigações.

A Polícia Federal (PF), que entrou com pedido de prisão preventiva no Superior Tribunal de Justiça (STJ) contra o padre Robson de Oliveira, na quarta-feira (17), investigado pelo desvio de R$ 100 milhões da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), em Trindade (27 km da Capital) e agora pela suspeita de “compra de sentença” no valor e R$ 750 mil para “enterrar as investigações”, indiciou também os dirigentes da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), Anderson Reiner Fernandes e Rouane Carolina Azevedo, além do contador José Pereira.
Os desembargadores apontados pela PF são: a relatora Amélia Martins de Araújo, o juiz substituto Roberto Horácio Rezende e Orloff Neves Rocha.
O padre Robson de Oliveira foi alvo da “Operação Vendilhões”, deflagrada em 2020, que investiga desvio de R$ 100 milhões, doados por fiéis, da Associação Filhos do Pai Eterno (Afipe), em Trindade (27 km da Capital), que era administrada pelo religioso.
Sobre o andamento do pedido na Justiça, o STJ disse que não divulga informações sobre casos que estão em segredo de Justiça.
Para reabrir o processo, a PF argumenta o encontro de um áudio apreendido ainda à época da “Vendilhões”, onde, supostamente, aponta que o padre pagou R$ 750 mil a dois desembargadores dois desembargadores e um juiz substituto do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO) para conseguir o encerramento das investigações de desvio.
Segundo o advogado do padre Cléber Lopes, que alegou que os fatos que embasaram esse pedido de prisão são antigos, o que não justificaria a prisão, o documento deve ser tratado em audiência nesta segunda-feira (22), com horário ainda não definido.
Em nota, o STJ disse que não divulga informações sobre casos que estão em segredo de Justiça.
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Investigação
A investigação da Polícia Federal foi motivada por um áudio do padre, em que ele cita supostos pagamentos de propina a desembargadores do TJGO.
Na gravação, Robson de Oliveira conta: “Estou em uma situação que está complicando minha vida. Fez um documento de acordo extrajudicial em termo de sub-rogação de valores lá daqueles R$ 600 mil que passei através do Medeiros para aquele desembargador".
Em outro trecho da conserva, o advogado Cláudio Pinho e o ex-dirigente da Afipe Anderson Fernandes aparecem falando com o padre.
"Deixa eu falar um negócio para senhor, só para relembrar. Uma parte desse valor. Entendeu. Já não me pertence, já está comprometido e isso eu preciso acertar", diz o advogado. Em seguida, Anderson fala: "Eu quero ser bem mais claro. Ele está dizendo que para ganhar lá, no Tribunal, ele comprou pessoas". O padre questiona: "Qual é essa parte?".
"O senhor se comprometeu com R$ 750 mil lá", explica o ex-dirigente. Em seguida, Cláudio reforça: "ó para o senhor ter noção, dos três desembargadores, R$ 500 [mil] para um e o resto é dividido para dois. Para os outros dois, entendeu? Então, a gente não pode deixar fechar essa porta de jeito nenhum".
A investigação apontou que a conversa se refere ao pagamento do advogado, no valor de R$ 1,5 milhão. Entretanto, metade do valor seria destinado à compra de magistrados para ganhar a ação no TJGO.
Divulgação/PF
Bilhete encontrado no carro do padre: "600 mil do desembargador"
Durante a operação Vendilhões, deflagrada em agosto de 2020, um bilhete foi apreendido no carro do padre Robson onde estava escrito "600 mil do desembargador". Segundo os investigadores, o documento teria ligação com o valor pago aos desembargadores citados na reunião entre o padre, o advogado e o ex-dirigente da associação.
Envolvimento de desembargadores
No pedido de prisão, a Polícia Federal afirmou que o pagamento de propina aconteceu de fato. No entanto, não se sabe como aconteceu o acerto ou quem teria recebido esse dinheiro. Dessa forma, justificou a necessidade do aprofundamento das investigações "para o bem dos goianos e do sistema judiciária, que não continue coberto pelo manto da impunidade dos poderosos".
No documento, a corporação relembrou o fato do padre ter perdido o processo em primeira instância. Após recorrer à decisão no Tribunal de Justiça, o recurso foi julgado pela 2ª turma da 1ª Câmara Cível. Por isso, as autoridades supostamente envolvidas seriam a desembargadora relatora Amélia Martins de Araújo, o desembargador, agora aposentado, Orloff Neves Rocha, e o juiz substituto em primeiro grau Roberto Horácio Rezende.
Divulgação/PF
Desembargadores supostamente envolvidos no esquema de propina
Outro lado
O advogado de defesa dos magistrados, Luis Rassi, disse, em nota, que o Tribunal de Justiça de Goiás solicitou a apuração dos fatos no âmbito administrativo e judicial. A conclusão do TJ é que os desembargadores tiveram seus nomes usados indevidamente por um "vendedor de fumaça".
Nota na íntegra
Sobre o pedido de prisão do Padre Robson e outras pessoas a ele vinculadas, os desembargadores mencionados no inquérito, esclarecem que ao tomarem conhecimentos da suspeita contra eles formulada, de imediato requereram, no âmbito administrativo e judicial a apuração dos fatos.
O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás, ao efetivar exaustiva investigação concluiu pela prática do crime de exploração de prestígio pelo advogado mencionado na gravação e no inquérito. Foram analisadas movimentações bancárias, colhidos depoimentos e enfim, auferida a confissão daquele profissional do Direito que firmou ter recebido para si e por si consumido o dinheiro recebido da AFIPE.
Independente do decreto de prisão do padre, de seu advogado, da efetivação de busca e apreensão, ao final, a conclusão do Superior Tribunal de Justiça será a mesma que teve o Tribunal de Justiça do Estado de Goiás. E a única conclusão possível é que os desembargadores foram vítimas de um vendedor de fumaça, que utilizou o nome de homens e de uma mulher de bem, para auferir vantagem ilícita.
Os desembargadores esperam, o quanto antes, o efetivo esclarecimento de todos os fatos irresponsavelmente criados neste maldoso episódio que não deixa de macular a honra pessoal e profissional de pessoas sérias e que se dedicam à vida pública há mais de quarenta (40) anos.
Operação Vendilhões
A operação começou após investigações que apuravam extorsões feitas por hackers contra o padre Robson, que era ameaçado de ter um suposto relacionamento amoroso divulgado. Para que as mídias não fossem expostos, o padre pagou R$ 2,9 milhões em dinheiro para os hackers. O valor foi retirado da Associação Filhos do Divino Pai Eterno (Afipe).
Em agosto de 2020, o Ministério Público de Goiás (MPGO) cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao religioso. Segundo as investigações, as associações lideradas pelo padre movimentaram, em dez anos, cerca de R$ 2 bilhões.
Os valores foram arrecadados de fiéis, com o intuito de construir a nova Basílica de Trindade. No entanto, o dinheiro foi desviado para a compra de imóveis e empresas. Enquanto isso, o novo templo não teria nem saído da fase inicial da obra.
No final do ano passado, o padre e outras 17 pessoas foram denunciadas pelo MP por organização criminosa, apropriação indébita, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro.
O processo, no entanto, foi bloqueado pelo STJ, sob a alegação de que os dados foram "ilegalmente utilizados pelo Ministério Público para iniciar a persecução".

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