Ex-prefeita de Planaltina é condenada por direcionar contratação emergencial de OS
Segundo a decisão judicial, a ex-prefeita autorizou e contribuiu para a contratação da entidade mesmo sabendo das deficiências estruturais do hospital.

O Ministério Público de Goiás (MPGO) obteve a condenação da ex-prefeita de Planaltina de Goiás, Maria Aparecida dos Santos, e de Amélia dos Santos Ramos, representante da Associação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu, por irregularidades na contratação emergencial da organização social responsável pela gestão do Hospital Municipal Santa Rita de Cássia e da UPA 24h em 2020, durante a pandemia de Covid-19.
A decisão foi proferida pela 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Goiás (TJGO), que reconheceu a prática do crime previsto no artigo 89 da antiga Lei de Licitações (Lei nº 8.666/93), referente a direcionamento e contratação ilegal.
O promotor de Justiça Rafael Simonetti Bueno da Silva, coordenador do Núcleo Especializado em Crimes Praticados por Prefeitos (NUCPP), atuou pelo MPGO em segundo grau.
Condenações
Maria Aparecida foi condenada a 3 anos e 6 meses de detenção, além de 11 dias-multa. A pena levou em conta a agravante do período de pandemia e a atenuante da idade.
Já Amélia dos Santos Ramos recebeu pena de 4 anos e 1 mês de detenção, além de 12 dias-multa.
As penas privativas de liberdade de ambas foram substituídas por duas restritivas de direitos, a serem definidas pelo juízo da execução penal.
Direcionamento e falhas no processo
Segundo a decisão judicial, a ex-prefeita autorizou e contribuiu para a contratação da entidade mesmo sabendo das deficiências estruturais do hospital. A Justiça apontou que ela consultou “pessoas estranhas ao Poder Público” e não comunicou o Conselho Municipal de Saúde, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) ou o próprio Ministério Público.
A denúncia, apresentada em 17 de outubro de 2023 pela promotora de Justiça Gabriela Starling Jorge Vieira de Melo, relatou que o chamamento público para contratação emergencial foi publicado em 26 de junho de 2020, e apenas três dias depois, em 1º de julho, o contrato emergencial nº 29/2020 já havia sido firmado — no valor de R$ 18.172.550,00 e validade de 180 dias — beneficiando a entidade representada por Amélia.
Testemunhas informaram que o hospital seguia funcionando, embora sobrecarregado, e que cerca de 170 servidores foram substituídos abruptamente, sem aviso prévio.
Irregularidades graves no processo
De acordo com o MPGO, o processo foi marcado por irregularidades como:
-
prazo de apenas um dia útil para apresentação de propostas;
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ausência de edital e termo de referência;
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inexistência de lei municipal regulamentando organizações sociais;
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falta de qualificação da entidade contratada;
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indícios de acerto prévio;
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presença de representantes da associação no hospital antes mesmo do chamamento público.
Um dos documentos analisados pela Justiça reforça o direcionamento: em 26 de junho de 2020, a entidade enviou ao secretário municipal de Saúde uma proposta com a frase: “Em atenção à solicitação deste município, segue novamente proposta financeira…”
Para o juízo, os termos “solicitação” e “novamente” demonstram o ajuste prévio entre as partes.
Concorrentes ignoradas e prejuízo aos cofres públicos
Mesmo recebendo propostas de duas outras entidades — uma delas com valor de R$ 9.445.873,81, praticamente a metade do contratado — a administração optou pela associação ligada a Amélia. O prejuízo aos cofres públicos, antes da suspensão judicial do contrato, foi de R$ 1.098.627,50.
A sentença conclui que todo o processo foi construído “mediante expediente fraudulento destinado a direcionar recursos públicos milionários para entidade previamente escolhida”. As provas, segundo o Tribunal, “não deixam dúvidas quanto ao conluio” e afastam qualquer alegação de boa-fé ou erro administrativo.

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