Empresas de fachada e shows baratos: polícia detalha esquema com rombo milionário em Goiânia
Investigação aponta dois núcleos de atuação, repasses em série, empresas ligadas a familiares e eventos de baixa complexidade para desviar recursos da Secretaria de Cultura. Vereador Zander Fábio foi preso

A operação da Polícia Civil que terminou com a prisão do vereador e ex-secretário de Cultura de Goiânia, Zander Fábio, revelou um suposto esquema montado dentro da administração municipal que, segundo as investigações, usava eventos de carros antigos e empresas de fachada para movimentar recursos públicos da Secretaria de Cultura durante a gestão do ex-prefeito Rogério Cruz. Embora a apuração inicial aponte contratos que somam mais de R$ 1,5 milhão em 2024, investigadores agora analisam documentos e materiais apreendidos para identificar outros contratos e valores que podem ampliar o rombo sob investigação.
A ação ganhou repercussão após policiais prenderem Zander dentro da Igreja Matriz de Campinas, durante uma missa. Também foram presos temporariamente Elton da Silva Nogueira e Jean de Jesus Magnolim Lima e Silva, apontados pela investigação como integrantes da estrutura que operava o esquema.
Segundo a Polícia Civil, o grupo funcionava dividido em dois núcleos: um político e outro privado.
No núcleo político, a investigação aponta atuação direta do então secretário de Cultura, Zander Fábio, no direcionamento dos recursos públicos destinados aos eventos.
Já o núcleo privado teria sido comandado por Jean de Jesus, presidente do Instituto Vida e também da Associação Clássicos Goiânia — entidade responsável pela organização das exposições de veículos antigos realizadas na capital.
De acordo com os investigadores, o grupo teria criado uma engrenagem baseada na abertura de empresas sem estrutura operacional, registradas em endereços residenciais e controladas por pessoas ligadas ao clube de carros antigos, familiares, amigos e diretores da própria associação.
O papel de Elton da Silva Nogueira, segundo a polícia, seria justamente viabilizar essa etapa: abrir as empresas e executar as contratações consideradas fraudulentas.
As investigações identificaram um padrão que levantou suspeitas. Em 2024, foram registrados ao menos 41 pagamentos destinados às empresas investigadas, totalizando mais de R$ 1,5 milhão.
Os depósitos, segundo a polícia, eram frequentemente feitos no mesmo dia e com valores idênticos.
Além disso, as empresas não possuíam histórico de atuação no mercado, nem estrutura compatível com a realização dos eventos contratados. Em alguns casos, após receberem os recursos públicos, encerravam as atividades logo na sequência.
Outro ponto que chamou atenção foi a composição dos contratos. Conforme a investigação, os nomes apresentados como prestadores de serviços coincidiam com integrantes da Associação Clássicos Goiânia, parentes e pessoas próximas ao grupo.
“Os próprios proprietários dessas empresas e as pessoas que prestariam serviço eram diretores do clube, amigos e familiares”, destacou a investigação, apontando indícios de irregularidades inclusive nas dispensas de licitação.
Os eventos investigados ocorreram entre março e novembro de 2024 e tinham como principal atração exposições de carros antigos promovidas pela Associação Clássicos Goiânia.
Para a polícia, porém, os gastos não se justificavam.
Segundo os investigadores, eram eventos de baixa complexidade, normalmente compostos por palco, apresentações musicais e banheiros químicos. Já a exposição dos veículos era feita voluntariamente pelos próprios colecionadores e participantes.
Em vários desses encontros, o próprio Zander Fábio aparecia no palco como cantor das atrações musicais.
A investigação também chegou ao ex-vereador Leandro Sena, alvo de mandado de busca e apreensão, mas não preso.
Ele é apontado como agente político acionado por Jean de Jesus para atuar em favor do grupo investigado.
Em 2024, Leandro destinou R$ 568 mil em emendas parlamentares ao Instituto Vida, presidido por Jean. No mesmo período, a entidade e o então vereador apareceram como apoiadores de cinco eventos ligados às exposições de carros antigos.
Durante a operação desta terça-feira, policiais apreenderam ainda objetos de colecionador que estariam registrados em nome de terceiros e que seriam, supostamente, ligados a Zander Fábio.
Agora, a Polícia Civil tenta ampliar o alcance da investigação.
“O nosso trabalho a partir de agora é entender se existem outros agentes públicos eventualmente envolvidos, outros particulares, outras empresas e valores ainda não identificados”, afirmou o delegado responsável.
O caso reacende antigos episódios envolvendo o ex-secretário. Em 2017, Zander foi alvo da Operação Multigrana, que investigou desvios na bilheteria do Parque Mutirama, quando ele comandava a Secretaria Municipal de Turismo. A Justiça determinou devolução superior a R$ 2 milhões aos cofres públicos; ele recorre da decisão.
Antes disso, em 2015, também foi preso por irregularidades envolvendo contribuições do INSS na antiga Companhia de Obras do Município (Comob), onde atuava como diretor financeiro.
A defesa de Zander Fábio afirmou que ele “jamais participou de qualquer esquema de desvio de recursos públicos” e sustentou que não há demonstração de recebimento de vantagem indevida, enriquecimento ilícito ou prática dolosa por parte do ex-secretário.
Os advogados declararam ainda confiar no esclarecimento dos fatos durante o andamento do processo.
As defesas de Jean de Jesus e do ex-vereador Leandro Sena não se manifestaram. A reportagem também não conseguiu contato com a defesa de Elton da Silva Nogueira.

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