Desconfiado, Bolsonaro mandou "Abin Paralela" investigar Gustavo Gayer
Ramo ilegal de espionagem, criada na gestão Bolsonaro, monitorou quase 1.800 celulares e abrangeu parlamentares, até mesmo aliados, jornalistas e integrantes do Judiciário

A recente revelação de que a "Abin Paralela", ramo ilegal de espionagem criada dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), monitorou quase 1.800 celulares durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) lança uma nova luz sobre as práticas adotadas durante seu governo. Entre os alvos da espionagem, "curiosamente", está o deputado federal Gustavo Gayer (PL), um dos principais aliados do bolsonarismo em Goiás e Brasília.
De acordo com um relatório da Polícia Federal, que se tornou público após a liberação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) nessa quarta-feira (18), a Abin Paralela atuou em um período que vai de fevereiro de 2019 a abril de 2021, monitorando adversários políticos e até mesmo aliados. O escopo da espionagem abrangeu parlamentares, jornalistas e integrantes do Judiciário, levantando questões sobre a ética e a legalidade das operações feitas sob a gestão Bolsonaro.
Entre a lista de alvos, destacam-se figuras proeminentes como Renan Calheiros (MDB), Omar Aziz (PSD) e Kim Kataguiri (União). A inclusão de Gustavo Gayer, que até então era visto como um defensor do governo, levanta questões sobre a confiança e as dinâmicas dentro do bolsonarismo, tornando-se um exemplo emblemático do clima de paranoia e controle que permeava o governo.
O software utilizado pela Abin Paralela era capaz de rastrear celulares explorando vulnerabilidades nas redes de telefonia 2G e 3G. A escolha de não utilizar tecnologias mais seguras sugere uma intenção deliberada de evitar os mecanismos de prevenção que poderiam proteger os cidadãos. Essa ruptura com os padrões de ética e de respeito à privacidade gerou preocupações não apenas sobre a privacidade individual, mas também sobre os direitos civis em um regime democrático.
Os ministros do STF Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso foram também monitorados, revelando o alcance do que muitos já chamaram de "watergate" brasileiro. Esta prática não apenas enfraquece as instituições democráticas, mas também serve como um atestado do uso indevido de instrumentos estatais para fins políticos e pessoais.
O governo Bolsonaro comprou o sistema utilizado para a espionagem sem realizar licitação, gastando aproximadamente R$ 5,7 milhões. A falta de transparência nesse tipo de contratação é alarmante e levanta questões sobre como os recursos públicos foram alocados, e para quais finalidades. A ausência de supervisão adequada contribui para um ambiente propício a abusos de poder e violações dos direitos humanos.

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