A Câmara Municipal de Caldas Novas deve avançar nos próximos dias na análise de representações que pedem a cassação do mandato do vereador Hudson Matheus de Paula Pires (MDB), conhecido como “vereador do trenzinho”. O parlamentar está afastado cautelarmente por decisão judicial e é acusado de solicitar vantagem financeira - "propina" - para viabilizar a emissão de alvarás de funcionamento de trenzinhos turísticos no município.
Enquanto o processo político-administrativo tramita, o Legislativo já oficializou o afastamento e convocou o 1º suplente do MDB, Cláudio José da Costa, o “Claudinho Costa”, que tomou posse nesta sexta-feira (20), durante sessão ordinária. O processo interno deverá ser encerrado em até três sessões.
A portaria nº 029/2026, assinada pelo presidente da Casa, Saulo Inácio (Novo), formalizou a convocação do suplente com base no Regimento Interno. Claudinho Costa deixou o cargo de diretor comercial do Departamento Municipal de Água e Esgoto (DEMAE) para assumir a vaga no Legislativo. Ele já havia sido preso antes da última campanha eleitoral, durante operação realizada no Poupa Tempo da cidade.
As acusações
Segundo o Ministério Público, há indícios consistentes de corrupção e extorsão envolvendo a concessão pública para exploração dos trenzinhos turísticos.
A investigação aponta:
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Uma folha de cheque endossada ao próprio vereador;
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Comprovantes de transferências via Pix no valor de R$ 20 mil feitas a um assessor direto;
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Transferência inicial de R$ 2 mil a uma servidora pública municipal, valor que, segundo documentos, foi repassado no mesmo dia à conta do parlamentar;
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Áudios atribuídos a Hudson Matheus, nos quais ele afirmaria ter influência direta na liberação das autorizações e mencionaria falsificação de assinaturas.
De acordo com as denúncias, empresários do setor teriam sido coagidos a pagar valores para obter ou manter a autorização de funcionamento dos trenzinhos. Um dos permissionários afirmou ter entregue cheque caução e realizado transferências após suposta exigência do vereador.
Mesmo após o pagamento inicial de R$ 2 mil em um dos casos, o alvará não teria sido concedido. O MP sustenta que as provas reunidas indicam que o esquema pode envolver outras pessoas e ser apenas a “ponta do iceberg”.
Outras denúncias
Além das acusações de corrupção, há registro de ocorrência por ameaça. Em um dos episódios relatados, o vereador teria intimidado terceiros e se apresentado como integrante de facção criminosa — fato que também é apurado pelas autoridades.
A representação protocolada na Câmara foi apresentada pelo advogado Rannieri Lopes, com base em denúncias dos empresários Ivair Clemente Gomes e Sérgio de Castro. O pedido sustenta quebra de decoro parlamentar e uso do mandato para solicitação de vantagem indevida, o que pode fundamentar a cassação.
Há ainda denúncia de que um agente de trânsito apontado como apadrinhado político do vereador teria realizado abordagens reiteradas aos trenzinhos e recebido valores entre R$ 50 e R$ 80 para permitir a circulação.
Processo político e bastidores
A Câmara instaurou procedimento interno para analisar o caso. Nos bastidores, porém, há ceticismo quanto à possibilidade de cassação definitiva, já que o afastamento judicial já retirou o parlamentar das funções.
Caso o processo avance, será necessário o cumprimento das etapas previstas no Regimento Interno, incluindo comissão processante e votação em plenário.
Defesa
Hudson Matheus nega as irregularidades. Procurado anteriormente por veículos de imprensa, o parlamentar não se manifestou até o fechamento das reportagens. O espaço segue aberto para manifestação da defesa.
A votação que pode definir o futuro de Hudson Matheus na vida pública promete tensionar o plenário e colocar à prova o discurso de combate à corrupção na Câmara de Caldas Novas.
Hudson Matheus está fora do cargo desde janeiro, por decisão da Justiça, atendendo a pedido do Ministério Público de Goiás. A medida também determinou o afastamento de uma assessora parlamentar e proibiu ambos de acessarem as dependências da Câmara.