Analista: Caiado quer fazer caixa para se reeleger e pode jogar Goiás no buraco
O professor Luiz Antônio Signates Freitas conversou com o G5 News e apontou que, aparentemente, a intenção de Caiado no programa federal é ter disponibilidade de caixa para viabilizar reeleição.

A “perseverança” do governador Ronaldo Caiado (DEM) em colocar Goiás no programa de Regime de Recuperação Fiscal (RRF), do governo federal, e a “queda de braço” que tem travado com o presidente Jair Bolsonaro (PL), para conseguir seu objetivo, tem sido interpretado como “manobra política” para garantir disponibilidade de caixa num ano de eleições em que tentará se reeleger ao cargo.
Especialistas apontam que a adesão beneficiará especificamente o governador na corrida eleitoral, que terá “montanha de dinheiro” para gastar como quiser, mas é “desnecessária” ao Estado, além de causar um prejuízo orçamentário gigante que impactará algumas outras gestões, além da dele próprio, caso reeleito.No entanto, Bolsonaro é o empecilho no caminho de Caiado.
O presidente tem feito críticas recorrentes ao governador e já deixou claro que “aguardará mais um pouco” para assinar a homologação de Goiás no RRF, após “analisar melhor” a situação fiscal do Estado.
O comunicado foi feito durante a última live de quinta-feira do presidente, que estava na companhia do deputado federal, e amigo pessoal, Victor Hugo (PSL), possível candidato de Bolsonaro à vaga de governador de Goiás e, consequentemente, oposição de Caiado, com a intenção de desgastar a imagem do democrata perante os servidores públicos, com ressalvas de que a categoria será a mais afetada com a entrada do Estado na Recuperação Fiscal.
O G5 News conversou com o analista político Luiz Signates, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás.
Signates, de imediato, explicou que o Regime de Recuperação Fiscal (RRF) nada mais é do que o “inadimplemento de imposto”.
O Estado deixará de honrar com a dívida pública junto à União e com isso sobrar dinheiro em caixa.O analista chama atenção para o fato de que Goiás não se enquadra nos quesitos necessários para entrar no programa, já que para Receita Federal o Estado tem condições de arcar com as dívidas junto à União.
Para reverter a decisão, Caiado conseguiu na Justiça que Goiás fosse enquadrado no Regime de Recuperação Fiscal. Mas, Bolsonaro, que tem que assinar para “permitir” a adesão, tem dificultado.
A contrapartida, no entanto, é que Caiado não poderá reajustar salário dos servidores, realizar concursos públicos e nem criar despesas obrigatórias e continuadas, entre outras.
“Caiado, aparentemente, depende dessa verba para fazer o ano de 2022 se viabilizar eleitoralmente, investir na infraestrutura do estado e aparecer como ‘governador realizador’, o que não conseguiu nesses três anos. O Bolsonaro está politicamente contra ele [Caiado], então, o que estamos vendo é uma queda de braço de natureza política”, explica o professor sobre a insistência de Caiado na RRF.
Quem vence a queda de braço
Signates aponta que o resultado dessa “briga” dependerá muito da capacidade do Caiado de convencer os partidos do “centrão”, base do Bolsonaro, forçar o presidente a homologar a adesão de Goiás no Regime de Recuperação Fiscal para chegar a seu objetivo.
Porém, o governador teria que ter “moeda de troca” para negociar com o Congresso Nacional.
“Para Receita Federal, Goiás não se enquadrava [no Regime de Recuperação Fiscal], pois, o Estado tinha condições de pagamento e arcar com as dívidas junto à União, mas Caiado ganhou na Justiça a autorização [para entrar no programa federal]. Essa decisão parou na mão do Bolsonaro, que agora terá que “permitir” isso [adesão do Estado no RRF], ou não, e é aí que entra a questão política. O presidente é um governante fraco e pode acabar homologando a adesão de Goiás, pressionado pelo “centrão”, mas vai depender da capacidade do Caiado para convencer os parlamentares do Congresso Nacional a pressionar Bolsonaro. Não sei se o governador tem moeda de troca para conseguir isso”, analisa.
Recuperação Fiscal e consequências
O professor explica que, pelo olhar do cidadão, a Recuperação Fiscal é ruim para Goiás, comprometendo as próximas administrações com uma dívida muito maior do que essa que o Estado poderá ser poupado de pagar neste momento, causando um prejuízo orçamentário gigante e a longo prazo.
Signates aponta que a Recuperação Fiscal beneficia especificamente Caiado, já que gerará uma montanha de dinheiro para fazer o que quiser, distribuir recursos, comprar prefeitos, ter palanques em todo Estado e segurar a reeleição.
“O Caiado, na verdade, está jogando com as dívidas públicas. Sabemos que quem vender o almoço para comprar a janta, passará fome no dia seguinte. Não se deve fazer isso, mas é exatamente o que o governador está fazendo ao tentar incluir Goiás à força no Regime de Recuperação Fiscal. Ele está jogando o problema no colo dele mesmo, se reeleito, e ainda para as próximas administrações pelo fato de ser uma dívida muito grande. Compromete a saúde fiscal do Estado e empurra para o buraco”, analisa Signates.
“Céu de brigadeiro”
O analista explica que, até o momento, sem nenhuma oposição forte para corrida eleitoral em 2022, Caiado aparenta estar trabalhando com o “já ganhei” acomodado nessa situação.
“A impressão que o governador tem passado, politicamente, é que acredita já ter ganho a eleição devido à falta de um adversário à altura, conforme demonstram as pesquisas. Ele [Caiado] está acomodado num “céu de brigadeiro”, principalmente depois que se aliou com o MDB, ficando realmente se uma oposição expressiva em Goiás.
Dessa forma, Caiado não está muito preocupado com a repercussão negativa com os servidores públicos em relação ao RRF. Mais importante é separar o dinheiro para fazer obras no estado e viabilizar sua campanha”, explicou Signates.
O analista aponta que um adversário que faria frente e ameaçaria Caiado seria a candidatura de Marconi Perillo (PSDB), o que pode acontecer, segundo os bastidores da política goiana.
“Marconi é uma “raposa velha” da política, está vendo Caiado indo para reeleição sem oposição e sabe que uma força para confrontar o governador seria ele [Perillo]. Acredito que coisas novas devem acontecer no cenário político de Goiás, agora é esperar para fazer novas análises”, disse o professor.

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