Sertanejo frauda Spotify e dá golpe de quase R$ 7 milhões a compositores
Ronaldo começou sua carreira aos 17 anos em bares de São Paulo. Integrou o Bonde do Sertanejo e depois formou a dupla Alex & Ronaldo, que teve um momento de destaque com "Sexta-Feira sua Linda", música repostada por Neymar

O Ministério Público de Goiás revelou em abril de 2024 um sofisticado esquema de fraude em streaming que resultou na primeira prisão do tipo no Brasil. Ronaldo Torres de Souza, 46 anos, ex-integrante da dupla Alex & Ronaldo, foi identificado como mentor de uma operação que causou prejuízo estimado em R$ 6,6 milhões aos compositores.
Preso preventivamente em Passo Fundo (RS), Ronaldo confessou gerenciar uma rede de perfis falsos que publicavam músicas roubadas de outros artistas no Spotify. Usando documentos falsos para cadastrar artistas fictícios, ele redirecionava os lucros para sua conta via Pix. A operação apreendeu R$ 2,3 milhões em bens, incluindo carros e criptomoedas.
Uma das descobertas mais impressionantes foi a identificação de uma "fazenda de streams" em um condomínio de luxo em Recife. Ali, 21 laptops simulavam 2.500 pessoas ouvindo músicas continuamente. Além do roubo de músicas, Ronaldo também utilizava composições geradas por inteligência artificial para ampliar seus ganhos.
Nos dispositivos do acusado, foram encontradas 3.900 "guias" - versões preliminares de músicas trocadas entre compositores e cantores. Entre as vítimas está o cantor Murilo Huff. A WMD, agregadora brasileira que colaborou com as investigações, identificou 68 perfis falsos vinculados ao esquema.
"Esse caso veio à tona porque envolveu roubo e a polícia investigou. Mas até as grandes duplas inflacionam plays nas próprias músicas", revelou Marcos Bernardes, do Blognejo. Segundo a consultoria Beatdapp, cerca de 10% das reproduções em serviços de streaming são falsas, desviando US$ 2 bilhões anualmente.
Da fama ao crime
Ronaldo começou sua carreira aos 17 anos em bares de São Paulo. Integrou o Bonde do Sertanejo e depois formou a dupla Alex & Ronaldo, que teve um momento de destaque com "Sexta-Feira sua Linda", música repostada por Neymar. Após o fim da dupla e tentativas frustradas de carreira solo, recorreu ao esquema criminoso.
A Justiça de Goiás aceitou a denúncia contra Ronaldo, que pode pegar até dez anos de prisão por estelionato, falsa identidade e violação de direitos autorais. Seu advogado, José Paulo Schneider, afirma que o cliente "prestou todos os esclarecimentos ao MP" e continuará colaborando.
"A execução falsa precisa ser criminalizada, pois distorce remunerações e métricas e institui um parâmetro falso que não se sustenta", defendeu Marcelo Castello Branco, da União Brasileira de Compositores.
O caso expõe uma face obscura da indústria musical e estabelece um precedente importante no combate a fraudes em plataformas de streaming. O Spotify informou que disponibiliza formulários para denúncia de conteúdos infratores pelos detentores de direitos.

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