Médico preso por fraude de R$ 79 milhões com benefício do Césio-137 atuou no Crer até junho
Luciano Henrique da Silva, segundo as investigações, teria participado de um esquema que simulava contaminação de militares pelo Césio-137 para justificar ações judiciais e desviar recursos públicos

Um dos presos na Operação Césio 171, deflagrada pela Polícia Civil de Goiás na quinta-feira (30), é o médico Luciano Henrique da Silva, que trabalhou no Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação (Crer), em Goiânia, até junho deste ano. Segundo as investigações, o profissional teria participado de um esquema que simulava contaminação de militares pelo Césio-137 para justificar ações judiciais e desviar recursos públicos. O prejuízo estimado ultrapassa R$ 1,7 milhão.
De acordo com a corporação, a função do médico no grupo era assinar laudos falsos, atestando supostos problemas de saúde relacionados à exposição ao elemento radioativo. Esses documentos eram então usados por advogados do núcleo jurídico da quadrilha para ingressar com ações judiciais fraudulentas, pleiteando isenções indevidas de imposto de renda e outros benefícios.
A Polícia Civil afirma que o grupo mantinha estrutura organizada e divisão de funções, com acesso a dados de militares e documentos sigilosos. Investigadores apontam que, caso o esquema não tivesse sido descoberto, o prejuízo potencial poderia chegar a R$ 79 milhões.
Luciano foi preso junto com os advogados Letícia Pereira Silva Neto, Guilherme Alves de Matos Bites, Breno Brandão Silva e o engenheiro Ricardo André Marques. Todos estão detidos em prisão temporária na Casa do Albergado.
O nome de Luciano também aparece em outro mandado de prisão, expedido por dívida de pensão alimentícia de R$ 3.643,51, conforme documentos divulgados pela TV Anhanguera. A reportagem não conseguiu contato com a defesa dos citados até o fechamento deste texto. O espaço segue aberto para manifestações.
Atuação no Crer
Questionado, o Crer (Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação) confirmou que o médico prestou serviços por meio de uma empresa terceirizada, mas negou que ele fizesse parte do quadro fixo da unidade.
Em nota, a instituição informou que o profissional atuou apenas no dia 25 de fevereiro de 2023 e que desde julho de 2025 está inativo, segundo registros internos e comunicado da empresa prestadora.
“O Crer esclarece que o profissional citado na matéria do jornal Primeira Edição não integra o corpo clínico do Crer. Ele atuou por meio de empresa terceirizada, tendo prestado serviços apenas na data de 25 de fevereiro de 2023. Após esse período, seu nome deixou de constar nas escalas da unidade, encontrando-se inativo desde julho de 2025, conforme registros internos e declaração da empresa prestadora de serviços.”
A operação
A Operação Césio 171 é conduzida pela Delegacia Estadual de Repressão a Crimes Contra a Administração Pública (Deapc), e já cumpre sua segunda fase. A ação incluiu o cumprimento de sete mandados de busca e apreensão domiciliar e cinco de prisão temporária na Região Metropolitana de Goiânia.
O grupo é acusado de apresentar documentos falsos e laudos médicos fraudulentos em nome de militares estaduais, sustentando diagnósticos de doenças graves supostamente decorrentes de contato com o Césio-137. O objetivo seria obter vantagens ilegais e fraudar o sistema de isenções fiscais.
A polícia aponta que o núcleo jurídico do esquema era responsável por redigir e protocolar as ações, enquanto parte do grupo produzia e fornecia os laudos falsos. A promessa, segundo os investigadores, era compartilhar os valores obtidos após o êxito dos processos.
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Primeira fase e desdobramentos
A primeira fase da operação ocorreu no ano passado, quando a Polícia Civil começou a investigar a advogada Ana Paula Pereira Matos, filha do engenheiro Ricardo André Marques. Ela foi denunciada por médicos que descobriram o uso indevido de suas assinaturas em laudos médicos. À época, o escritório da advogada teria retido os valores de três isenções obtidas judicialmente.
Ana Paula chegou a ser presa, mas foi libertada dias depois. Nesta segunda etapa, ela não foi alvo dos mandados.
O delegado responsável pela operação informou que o material apreendido passará por perícia e novas prisões não estão descartadas. A Polícia Civil também busca recuperar parte dos valores desviados e restringir o uso das ações fraudulentas já em tramitação.
O nome da operação faz alusão ao Césio-137, substância radioativa que provocou o maior acidente radiológico do mundo fora de uma usina nuclear, ocorrido em Goiânia, em 1987, e símbolo de um dos episódios mais marcantes da história da cidade.

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