Leandro Sena vira alvo de buscas após enviar emenda de R$ 568 mil para ONG ligada a esquema
Polícia aponta que ex-vereador teria sido acionado para favorecer grupo investigado; embora não tenha sido preso, Leandro Sena teve escritório vasculhado após esquema que desviou mais de R$ 1,5 milhão na gestão Rogério Cruz

Embora não tenha sido preso, Sena é apontado pela polícia como um agente político que teria sido acionado.
Câmara de Goiânia
O ex-vereador Leandro Sena entrou no centro das investigações sobre o suposto esquema milionário de desvio de recursos da Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia após ter o escritório alvo de mandados de busca e apreensão da Polícia Civil durante a operação que resultou na prisão do vereador e ex-secretário de Cultura Zander Fábio e de outros dois investigados.
Embora não tenha sido preso, Sena é apontado pela polícia como um agente político que teria sido acionado para atuar em favor do grupo investigado.
A operação foi deflagrada nesta terça-feira e apura o desvio de mais de R$ 1,5 milhão da Prefeitura de Goiânia em 2024, durante a gestão do ex-prefeito Rogério Cruz, por meio de contratos ligados à realização de exposições de carros antigos na capital.
O episódio mais simbólico da operação ocorreu logo nas primeiras horas do dia, quando policiais chegaram à Igreja Matriz de Campinas, onde Zander Fábio participava de uma missa, e cumpriram o mandado de prisão temporária contra o vereador. Também foram presos Elton da Silva Nogueira e Jean de Jesus Magnolim Lima e Silva.
Segundo a investigação, o grupo teria montado uma estrutura dividida em dois núcleos. O primeiro seria o político, responsável por direcionar recursos públicos, com atuação direta de Zander, que em 2024 ocupava o cargo de secretário de Cultura. O segundo seria o núcleo privado, liderado por Jean de Jesus, presidente do Instituto Vida e da associação Clássicos Goiânia, entidade responsável pelas exposições de veículos antigos.
A Polícia Civil afirma que Jean utilizava familiares, diretores do clube, amigos e pessoas próximas para abrir empresas sem estrutura operacional que recebiam recursos públicos. Elton, conforme a investigação, atuava na criação dessas empresas e na execução das contratações consideradas fraudulentas.
As apurações identificaram pelo menos 41 pagamentos feitos ao longo de 2024, somando mais de R$ 1,5 milhão. Os investigadores encontraram repasses realizados no mesmo dia e com valores idênticos. Muitas empresas não tinham histórico de atuação no mercado, funcionavam em endereços residenciais e encerraram as atividades logo após receberem os recursos.
“Pela descrição constante do próprio Portal da Transparência, a gente via que tanto os proprietários dessas empresas quanto as pessoas que prestariam serviço eram os próprios diretores do clube, amigos e familiares”, destacou a investigação, apontando indícios de favorecimento e irregularidades nas dispensas de licitação.
Mas o avanço da investigação colocou também Leandro Sena no radar policial. Segundo os investigadores, o ex-vereador teria sido procurado por Jean de Jesus para intervir politicamente em benefício do grupo.
Em 2024, Sena destinou uma emenda parlamentar de R$ 568 mil ao Instituto Vida, presidido por Jean. No mesmo período, o instituto e o então vereador apareceram como apoiadores de cinco exposições de carros antigos realizadas entre março e novembro pela Associação Clássicos Goiânia.
Os eventos contavam ainda com apresentações musicais nas quais o próprio Zander Fábio aparecia como cantor. Para a polícia, porém, as estruturas dos encontros não justificavam os altos valores empregados.
“Do ponto de vista dos próprios eventos, não fazia sentido a destinação de valores substantivos”, apontaram os investigadores. Segundo a polícia, as exposições tinham baixa complexidade, com estruturas simples, como palco, apresentações musicais e banheiros químicos, enquanto os veículos eram levados voluntariamente pelos participantes.
Durante as buscas desta terça-feira, os policiais também apreenderam objetos de colecionador registrados em nome de terceiros e que, segundo suspeita da investigação, seriam ligados a Zander Fábio.
“O nosso trabalho a partir de agora é analisar todo o material coletado para verificar se existem outros agentes públicos, particulares, empresas e contratos ainda não identificados”, afirmou o delegado responsável.
O caso reacende ainda o histórico de investigações envolvendo Zander. Em 2017, ele foi alvo da Operação Multigrana, que investigou desvios na bilheteria do Parque Mutirama, quando ocupava a Secretaria Municipal de Turismo. Na ação judicial, ele e outros investigados foram condenados a devolver mais de R$ 2 milhões aos cofres públicos — decisão da qual recorre.
Antes disso, em 2015, Zander chegou a ser preso por desvios relacionados a contribuições do INSS na antiga Companhia de Obras do Município (Comob), onde atuava como diretor financeiro. Na ocasião, também foi condenado a ressarcir valores ao erário.
A defesa de Zander Fábio afirmou que o ex-secretário “jamais participou de qualquer esquema de desvio de recursos públicos” e sustentou que não há demonstração de enriquecimento ilícito, recebimento de vantagem indevida ou prática dolosa por parte dele. Os advogados disseram confiar no esclarecimento dos fatos durante o processo.
As defesas de Leandro Sena e Jean de Jesus não se manifestaram. A reportagem também não conseguiu contato com a defesa de Elton da Silva Nogueira.
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