Homem manda vítimas pensarem nos números da Mega e mata com tiro na nuca
Criminosos atraíam vítimas com promessas falsas, executavam os alvos em rituais e usavam restos mortais em altar montado na chamada “Casa da Morte”; dupla foi condenada a mais de 38 anos de prisão

Um sítio isolado na zona rural de Iguatu, no interior do Ceará, virou cenário de uma sequência de crimes que chocou o estado e expôs uma trama marcada por assassinatos, rituais macabros e a promessa de enriquecimento por meio da Mega-Sena. Entre 2017 e 2018, quatro pessoas foram assassinadas em execuções planejadas por Gleudson Dantas Barros e Roberto Alves da Silva, apontados pela polícia como líderes de uma suposta “seita satânica” que buscava números premiados da loteria e supostos poderes sobrenaturais.
As investigações começaram oficialmente em maio de 2018, após o desaparecimento do estudante Jheyderson de Oliveira Chavier. Imagens de câmeras de segurança mostraram o jovem ao lado de Gleudson, identificado pelos investigadores como o principal articulador do grupo.
Com o avanço da apuração e a prisão dos suspeitos, equipes da Polícia Civil e do Corpo de Bombeiros chegaram ao Sítio Canto, no distrito de Suassurana. No local, encontraram quatro corpos enterrados em covas rasas espalhadas pelo terreno. Durante as diligências, um adolescente que teria participado das execuções também foi localizado morto. A perícia concluiu que ele morreu por suicídio.
Segundo a investigação, o esquema seguia sempre o mesmo padrão. Antes dos crimes, os suspeitos preparavam previamente as covas e atraíam as vítimas ao sítio usando falsas promessas de dinheiro, festas ou caronas.
De acordo com o delegado Marcos Sandro Lira, as execuções aconteciam durante os rituais realizados pelo grupo.
“Lá eles colocavam um pano cobrindo a cabeça da vítima, pediam para eles se concentrarem, pensarem no número da Mega-Sena, aí chegava um por trás e dava um tiro na nuca. As quatro vítimas foram mortas dessa forma”, revelou o delegado ao detalhar a dinâmica dos crimes.
A brutalidade, porém, não terminava com as mortes. Conforme a investigação, os corpos eram posteriormente desenterrados e partes dos restos mortais eram retiradas para compor um altar montado na casa de Roberto Alves — imóvel que ficou conhecido entre os investigadores como “Casa da Morte”.
Ainda segundo a polícia e o Ministério Público, o líder do grupo acreditava que os rituais poderiam lhe garantir não apenas os números premiados da Mega-Sena, mas também “poderes divinos”, mulheres e força para “desafiar qualquer um”.
As vítimas, de acordo com os investigadores, eram escolhidas por vulnerabilidade emocional e psicológica. Em alguns casos, desafetos pessoais também entravam na mira dos criminosos.
“Eles escolhiam aleatoriamente. Eram serial killers psicopatas que se fingiam de religiosos para se infiltrar na sociedade. Eles escolhiam pessoas frágeis psicológica e emocionalmente, mas se fosse alguém que tinha alguma rixa com eles, era um alvo preferencial”, afirmou o delegado Sandro Lira.
O caso terminou com a condenação dos dois homens pelo Tribunal do Júri. Eles cumprem pena em regime fechado após receberem sentenças que, somadas, ultrapassam 38 anos de prisão pelos crimes de homicídio duplamente qualificado, ocultação de cadáver, corrupção de menores e vilipêndio de cadáver.
Durante um dos interrogatórios, Roberto Alves afirmou estar arrependido e declarou que os rituais não haviam trazido qualquer melhora para sua vida. Para os investigadores, porém, o desfecho poderia ter sido ainda pior.
A avaliação da polícia é que, caso o grupo não tivesse sido interrompido, novas vítimas poderiam ter sido atraídas para o sítio e incluídas na sequência de assassinatos que marcou um dos episódios criminais mais impactantes da história recente do Ceará.
Vítimas:


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