Fraude com laudos falsos sobre césio-137 pode ter favorecido 50 militares da reserva
As apurações revelaram que o grupo falsificava relatórios para que os beneficiários obtivessem a isenção do imposto de renda.

A Polícia Civil de Goiás desmantelou, nesta quinta-feira (30), um esquema que fraudava documentos para garantir isenção de imposto de renda a militares da reserva, sob a falsa alegação de que eles teriam sido expostos ao césio-137, elemento radioativo envolvido no maior acidente radiológico do país. Segundo as investigações, cerca de 50 militares foram beneficiados pela fraude, que poderia gerar um lucro de até R$ 79 milhões.
A operação, batizada de Césio 171, é a segunda fase da investigação iniciada em 2023, na chamada Operação Fraude Radioativa, e prendeu advogados, um médico e um engenheiro na Região Metropolitana de Goiânia. O grupo já teria causado prejuízo superior a R$ 1,7 milhão aos cofres públicos.
Esquema e denúncias
De acordo com o delegado Leonardo Dias Pires, da Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic), o caso veio à tona após um servidor público ser procurado para elaborar laudos falsos que atestariam a suposta contaminação dos militares. O servidor recusou o pedido e denunciou o esquema à Polícia Civil, dando início às investigações.
As apurações revelaram que o grupo falsificava relatórios e ingressava com ações judiciais para que os beneficiários obtivessem a isenção do imposto de renda. Para “comprovar” o contato com o césio-137, eram colhidos fios de cabelo e outros materiais biológicos, que eram usados em laudos médicos adulterados. O nome de um laboratório foi utilizado indevidamente nos documentos — a instituição confirmou à polícia nunca ter recebido as amostras mencionadas.
Divisão de funções
A organização criminosa era estruturada em quatro núcleos principais, cada um com papéis bem definidos:
Captação: liderado por uma advogada e um militar da reserva, responsáveis por atrair outros militares interessados na isenção;
Fraude: formado por um advogado e um médico, que confeccionavam documentos e laudos falsos;
Jurídico: núcleo que reunia os papéis adulterados e preparava as ações judiciais;
Advogados “laranjas”: profissionais que cediam suas senhas eletrônicas (tokens) para protocolar os processos na Justiça.
O engenheiro atuava como assessor do núcleo jurídico, revisando documentos falsificados para que parecessem mais autênticos, embora não tivesse formação na área do Direito.
Lucro e manipulação
A Deic informou que o grupo cobrava dos clientes três parcelas equivalentes ao valor da isenção obtida e ainda lucrava com supostas “análises” de material biológico no exterior — exames que jamais eram realizados.
A conduta de cada militar beneficiado está sendo analisada individualmente, já que há indícios de que alguns sabiam da fraude e chegaram a manipular o local de tramitação das ações para obter decisões judiciais favoráveis.
Operação e prisões
A Operação Césio 171 contou com apoio do Grupo de Repressão a Roubos (Garra) e da Gerência de Ações Estratégicas da Secretaria Estadual de Saúde. Nesta etapa, foram identificados cinco advogados, um médico e um engenheiro. Na primeira fase, já haviam sido apontados cinco advogados e um militar da reserva.
O médico preso nesta quinta-feira já estava sob investigação desde o início do caso, e as novas provas obtidas durante a análise de materiais apreendidos justificaram sua detenção. Os suspeitos devem responder por estelionato contra a administração pública, associação criminosa e falsidade ideológica.
“A primeira fase teve o objetivo de impedir que o esquema continuasse causando prejuízos. Agora, nesta segunda, buscamos responsabilizar todos os envolvidos e comprovar a extensão da fraude”, explicou o delegado Leonardo Pires.
Notas oficiais
O Crea-GO (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia) afirmou que acompanha o caso e já iniciou procedimentos internos para apuração dos fatos.
O Cremego (Conselho Regional de Medicina de Goiás) informou que não pode se pronunciar sem a identificação do médico investigado.
Já a OAB-GO declarou que investiga o suposto envolvimento de advogados e tomará as medidas cabíveis para preservar a integridade da profissão.
Contexto histórico
O acidente com o césio-137, ocorrido em setembro de 1987, em Goiânia, é considerado um dos maiores desastres radiológicos do mundo. O episódio começou quando um equipamento de radioterapia foi abandonado em um hospital desativado e acabou sendo recolhido por catadores. Ao manipular o material, várias pessoas tiveram contato com o pó azul brilhante e altamente radioativo.
O desastre contaminou 249 pessoas e provocou quatro mortes confirmadas. A tragédia mobilizou autoridades e órgãos de saúde por semanas, até a completa descontaminação das áreas afetadas.

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