Dona de boate tortura garota de programa por 5 meses; vítima hospitalizada
Mulher foi presa e contou que entidade teria dito que vítima planejava matá-la. Outras três pessoas foram presas sob suspeita de participar dos crimes

A Polícia Civil prendeu preventivamente, na última sexta-feira (24), a dona de uma boate em Vista Alegre do Prata, na Serra do Rio Grande do Sul, suspeita de torturar e manter uma garota de programa em cárcere privado por cerca de cinco meses dentro do próprio estabelecimento. O caso chamou atenção dos investigadores não apenas pela violência empregada, mas também pela justificativa apresentada pela empresária: segundo ela, uma “entidade religiosa” teria advertido que a vítima planejava assassiná-la.
De acordo com a delegada Liliane Kramm, responsável pela investigação, a mulher de 45 anos afirmou, em depoimento, que as “revelações espirituais” ocorriam durante incorporações realizadas no ambiente da boate. A partir desses “alertas”, ela teria decidido submeter a vítima — uma mulher que trabalhava como garota de programa — a diversos castigos físicos e psicológicos, privando-a de liberdade e de qualquer remuneração.
A delegada explica que a vítima, mantida no local desde maio deste ano, era forçada a continuar atendendo clientes mesmo machucada. As agressões, conforme apurado, eram encobertas pelas demais funcionárias, que também teriam participado dos abusos. “Passaram a impor castigos e cercear a liberdade para que fosse feito o pagamento de suposta ‘obrigação religiosa’”, afirmou Kramm.
Durante a investigação, a polícia apreendeu celulares pertencentes às suspeitas, nos quais foram encontradas fotos e vídeos da mulher agredida. As imagens confirmaram o padrão de violência e o caráter sistemático dos maus-tratos. Uma denúncia anônima feita por alguém que percebeu os ferimentos visíveis na vítima levou os agentes a deflagrar a operação de resgate e prisão.
Além da proprietária, outras três mulheres — duas de 31 anos e uma de 32 — foram presas preventivamente. Todas eram funcionárias do estabelecimento e responderão por tortura, supressão de liberdade e violência psicológica. As quatro foram encaminhadas ao Presídio Estadual de Nova Prata.
A força-tarefa policial relatou que o caso causou forte impacto entre os agentes.
“Trata-se de um crime grave, com contornos de violência e perversidade que chocam até mesmo os policiais acostumados com casos de agressão. A motivação é macabra e causa surpresa que as demais profissionais da casa tenham aderido a esta brutalidade sem qualquer ganho”, disse a delegada Liliane.
A vítima foi resgatada em estado de debilidade física e emocional. Após o socorro, permaneceu hospitalizada por 14 dias e recebeu acolhimento da rede de assistência social do município. Com a conclusão do atendimento médico, ela foi encaminhada de volta à cidade natal, no Nordeste do país, onde atualmente vive sob acompanhamento psicológico e da assistência social local.
A boate foi interditada e teve seu alvará de funcionamento cassado pela Prefeitura de Vista Alegre do Prata após a operação policial. A Polícia Civil continua coletando provas e depoimentos de possíveis testemunhas para complementar o inquérito, que deve ser remetido ao Ministério Público nas próximas semanas.
Apesar da gravidade do caso, a delegada não descarta a existência de novas vítimas. “Ainda investigamos se práticas semelhantes ocorreram anteriormente e se outras mulheres passaram por situações parecidas dentro daquele local”, afirmou.
O processo tramita sob sigilo judicial.

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