Racha no campo bolsonarísta expõe disputa interna após Michelle atacar Allan dos Santos
Ex-primeira-dama acusa influenciador de atuar como “boneco de ventríloquo” e nega articulação sucessória; episódio aprofunda tensões na direita alinhada a Jair Bolsonaro

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF) divulgou nesta quarta-feira (14) uma carta aberta direcionada ao influenciador Allan dos Santos, em que o acusa de promover ataqµes “levianos e injustos” e de agir como “boneco de ventríloquo” a serviço de interesses alheios. O texto explicita um racha no campo bolsonarista e evidencia disputas internas sobre liderança e rumos políticos da direita.
“Esse tal de Allan fez acusações levianas e injustas contra mim, servindo de ventríloquo de alguém que está perto dele, totalmente interessado em atacar mulheres ou qualquer um que possa ser um obstáculo aos seus espúrios interesses”, escreveu Michelle.
Em outro trecho, a ex-primeira-dama reage ao discurso do influenciador, que costuma se apresentar como alguém disposto a “levar a luz” aos seguidores. Para Michelle, a prática estaria distante da retórica. “Ele diz querer levar a luz, mas o que faz se parece mais com levar Lucífer do que luz”, afirmou, acrescentando que quem aponta erros alheios ignora as próprias responsabilidades.
A carta é uma resposta direta a questionamentos públicos feitos por Allan dos Santos sobre a atuação política de Michelle Bolsonaro. O influenciador levantou suspeitas sobre motivações pessoais ou oportunistas da ex-primeira-dama, insinuando que ela poderia estar se movimentando à revelia dos interesses do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Michelle rebateu as acusações e disse que Allan “não sabe” o que ela e o marido conversam nem conhece os planos do casal. Segundo ela, sua atuação ocorre “tudo a pedido” de Jair Bolsonaro, com o objetivo de manter o legado do ex-presidente, denunciar o que chama de perseguições e mobilizar apoiadores.
“Esse tal de Allan não sabe o que eu e meu marido conversamos, não vive a nossa intimidade, não imagina o que estamos passando e, portanto, tudo o que ele fala sobre nós não passa de bravata, achismos e maledicências”, escreveu, voltando a classificá-lo como “boneco de ventríloquo de canalhas”.
Curtida que virou estopim
O estopim para a carta foi uma curtida de Michelle em um comentário feito por Cristiane Freitas, primeira-dama de São Paulo e esposa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em meio a debates sobre economia e gestão pública, Cristiane mencionou a necessidade de o Brasil ter um “novo CEO”.
A expressão foi interpretada por setores da militância bolsonarista como uma possível insinuação de que Tarcísio poderia ocupar o espaço deixado por Jair Bolsonaro, atualmente inelegível. Influenciadores passaram a sugerir que Michelle estaria endossando uma articulação de sucessão, abrindo espaço para um nome visto por alas mais ideológicas como moderado demais ou “conciliador com o sistema”.
A leitura contraria a posição pública de Jair Bolsonaro, que já indicou o filho mais velho, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como seu nome preferencial para uma disputa presidencial futura.
Na carta, Michelle dedica um trecho para refutar essa interpretação. Segundo ela, a curtida teve sentido genérico, como crítica ao governo atual e expressão de desejo por mudança, e não como promoção de Tarcísio.
“Não interpretei o comentário como se ela estivesse apontando seu marido como o tal CEO, mas sim como se estivesse dizendo que o Brasil precisa de um novo governante”, escreveu. Ao final, arrematou: “Preferencialmente, Jair Bolsonaro”.
O episódio evidencia o ambiente de desconfiança e disputa por protagonismo no entorno do ex-presidente, em um momento em que a direita tenta reorganizar seu discurso e suas lideranças diante das restrições eleitorais impostas a Bolsonaro.

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