Médico ofereceu cirurgia a paciente em troca de sexo, diz vítima
Médico Nicodemos Júnior é acusado de abusar sexualmente de pelo menos 50 mulheres em Goiás, Distrito Federal, Pará e Paraná

Vítimas do ginecologista Nicodemos Júnior Estanislau Morais, de 41 anos, acusado de abusos sexuais, se pronunciaram sobre seus traumas após o médico ser preso em seu consultório, nessa quarta-feira (29), em Anápolis. Vítimas contas que médico oferecia até cirurgia em troca de sexo.
A detenção foi resultado de investigações de três denúncias informadas à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Anápolis. Após a prisão do acusado, cerca de 50 mulheres procuraram a polícia para relatar seus casos. Ao menos 41 já formalizaram a denúncia e foram ouvidas.
Mulheres de três estados e do Distrito Federal podem ter sido vítimas do médico, já ele possui registro médico ativo (CRM) em Goiás, Pará e Paraná, além do DF.
O ginecologista, inclusive, chegou a receber sentença condenatória por violação sexual mediante fraude pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT). No entanto, como era réu primeiro, conseguiu o benefício para cumprir a pena em regime aberto. O crime aconteceu no dia 26 de abril de 2018, em Samambaia do Sul (DF).
A vítima, Yane Moreira da Silva, de 21, tinha, à época, 18 anos. Em entrevista ao O Hoje, ela conta que foi à delegacia após a consulta com Nicodemos Júnior. No entanto, foi desacreditada no local.
Indignada com a demora no processo, procurou outro meio para desabafar: sua conta no Facebook. Em um texto, Yane chamou o médico de "monstro" e "safado", dizendo que ele estava usando de procedimentos "não usuais em exames ginecológicos de ultrassonografia transvaginal".
Segundo a vítima, além de comentários de cunhos sexuais, ele tentou agarrar e beijar. Em determinado momento, ainda colocou a mão em sua vagina.
O modus operandi sempre foi o mesmo. De acordo com relatos à Polícia Civil, os abusos sexuais aconteciam, principalmente, durante exames, como a ultrassonografia endovaginal. Ele escolhia as mulheres que estavam sozinhas. Em alguns casos, ele pedia para o acompanhante esperar na recepção.
Esse foi o caso de Kethleen Carneiro, de 20 anos. Aos 12, foi abusada por Nicodemos Júnior durante uma consulta em Anápolis. Ela foi levada pela mãe para tratar um possível cisto de ovário. Na hora de entrar no consultório, o médico pediu para que a responsável ficasse do lado de fora da sala.
Mas, lá dentro, longe dos cuidados da mãe, o homem iniciou o abuso contra a menor. Primeiro, segundo Kethleen, ele começou a falar sobre "ponto G".
Enquanto isso, passava a mão pelo corpo da paciente. Depois, mostrou quadrinhos pornográficos, insinuando que a excitação sexual em meninas e meninos era diferente. Neste momento, como forma de provar seu argumento, o médico pegou a mão da menina e colocou no órgão sexual dele, que estava ereto.
Hoje mãe de um bebê de um ano, Kethleen conta sua história para que outras mulheres se sintam incentivadas a denunciar. Ela conta que mais de 30 já a procuraram para contar que passaram pela mesma situação. Entre elas, sua prima. As informações são do O Globo.
Algumas das pacientes que foram vítimas relataram ter recebido mensagens de texto de cunho sexual. Para uma das mulheres, que preferiu não se identificar, o ginecologista insinuou que 'testaria' o anel vaginal, após ser questionado por ela se o método contraceptivo poderia atrapalhar as relações sexuais com seu parceiro.
"Bom, minha namorada já usou e eu não percebi diferença alguma. Posso testar kkk. Brincadeira", escreveu.
Outros casos também foram relatados pelas vítimas. Para uma, ele teria oferecido uma cirurgia em troca de relações sexuais. Em outras, ele manipulava o clitóris - órgão feminino relacionado ao prazer sexual -, além de abusos em pré-natal em grávidas e até durante partos.
Segundo a delegada Isabella Joy, titular da Deam de Anápolis, há, até o momento, ao menos 54 vítimas de Goiânia, Pirenópolis, Anápolis, Abadiânia e até do Pará. Devido ao alto número de denúncias, a corporação montou uma força-tarefa multidisciplinar, com psicólogas e outras profissionais de saúde.
A defesa do médico, representada pelo advogado Carlos Eduardo Gonçalves Martins, alega que ainda não teve acesso a todos os detalhes dos autos. Mas, reforça que o ginecologista não fez, em nenhum momento, qualquer tipo de procedimento médico com cunho sexual. O advogado disse que vários pacientes já se prontificaram a prestar depoimentos em favor do médico.

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