Justiça determina que policiais que prenderam homem encontrado morto horas depois de abordagem continuem presos
Na decisão, o juiz Eduardo Pio Mascarenhas da Silva explicou que a prisão temporária pode ser prorrogada quando a medida for “imprescindível para as investigações”

A Justiça de Goiás prorrogou por 30 dias, nessa segunda-feira (12), a prisão dos policiais militares que abordaram Henrique Alves Nogueira, encontrado morto após ser filmado sendo colocado em uma viatura horas antes do encontro de cadáver, em Goiânia. Vídeo registrado por câmeras de segurança mostra o momento que a vítima é colocada pelos agentes dentro do veículo oficial .
Na decisão, o juiz Eduardo Pio Mascarenhas da Silva explicou que a prisão temporária pode ser prorrogada quando a medida for “imprescindível para as investigações” e quando forem fundadas as razões de participação ou autoria dos envolvidos.
“Faz-se necessária a segregação dos representados uma vez que restam diligências investigativas a serem implementadas visando possibilitar a coleta de provas e esclarecimento dos fatos”, explicou o magistrado.
Mascarenhas ainda citou como justificativas para a prorrogação a "periculosidade dos investigados, dada a gravidade do crime e possível fraude processual ao registrar RAI sobre falsa morte em confronto com a polícia".
"[Eles] são policiais militares e tem fácil acesso as provas e tentaram, inclusive, apagar as filmagens da abordagem policial que culminou na morta da vítima polícia militar", disse o juiz.
As informações sobre os policiais militares terem tentado apagar as imagens da abordagem foram fornecidas por uma testemunha sigilosa que prestou depoimento sobre o caso.
"A testemunha contou que dois policiais à paisana estiveram no estabelecimento e solicitaram acesso ao DVR. Após eles deixarem o local, o equipamento parou de funcionar e todas as imagens haviam sido apagadas", detalhou.
No entanto, as imagens já haviam sido fornecidas à uma mulher que foi ao local acompanhada de dois homens, antes da chegada dos policiais.
A Polícia Militar afirmou que está à disposição da justiça e colaborando com o trâmite processual.
Abordagem policial
A câmera de segurança de um comércio filmou na última quinta-feira (11) quando Henrique Alves caminhava em rua com as mãos no bolso do casaco. Uma viatura do Tático da Polícia Militar (PM) para ao lado dele. Os PMs descem com revólveres nas mãos e o jovem logo se vira contra um muro para ser revistado.
A abordagem dura poucos segundos. As imagens mostram que o jovem e os policiais conversam por cerca de cinco minutos. Em seguida, os militares levam Henrique para o porta-malas da viatura. Ele até tenta resistir, mas acaba entrando. O carro da PM, então, segue trajeto desconhecido.
De acordo com o advogado Alan Araújo Dias, que representa a família, o jovem foi abordado no Bairro Jardim Europa por volta de 8h da manhã, a última vez em que foi visto com vida.
Depois disso, a família tentou contato com ele durante todo o dia, mas não conseguiu. Registraram boletim de ocorrência por desaparecimento. À noite, cerca de 12 horas depois da abordagem, receberam a notícia da morte. O corpo foi achado no Bairro Real Conquista, que fica a 14 km do local da abordagem. Um laudo apontou que Henrique morreu por hemorragia após levar tiros.
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Suposto confronto
Segundo o delegado responsável pelo caso, André Veloso, o jovem foi colocado na viatura por volta de 8h da manhã e a delegacia de Homicídios foi acionada às 22h do mesmo dia, pela mesma viatura, para uma ocorrência de um suposto confronto.
"A versão deles [policiais] é que eles estavam andando ocasionalmente, se depararam com uma moto, pediram para parar, o motociclista fugiu e o carona confrontou a equipe, mas tivemos acesso a imagens que comprovam que, ao invés desse confronto, ele foi abordado e colocado no interior da viatura", disse o delegado.
Os policiais militares que abordaram o jovem registraram uma ocorrência contando que houve um confronto entre a equipe e dois suspeitos que estavam em uma moto
Eles descreveram que estavam em patrulhamento quando cruzaram com a motocicleta de cor prata. Narram que os dois ocupantes tentaram dar meia volta para evitar abordagem. A moto derrapou e o garupa que levava uma mochila desceu.
Os militares dizem ainda que pediram socorro médico para o suspeito e que a morte foi constatada ainda no local. A equipe disse que ele levava uma mochila cheia de drogas. Registraram que o jovem não tinha documentos e que o outro suspeito fugiu.
Apesar de os militares alegarem que o jovem estava com drogas numa mochila, a Polícia Civil explica que, segundo as imagens que mostram a abordagem, Henrique Alves não portava nenhum dos objetos apontados.
"Na abordagem deu para ver que ele não estava com mochila nenhuma, não estava armado e não estava portando essas drogas. Ele estava sozinho, eles fazem a revista pessoal dele e o colocam no camburão", explicou o delegado.
No registro policial em que os policiais militares detalharam o suposto confronto, foi explicado ter sido encontrado na mochila:
3 barras e meia de substância similar a maconha;
70 papelotes de substância similar a cocaína;
38 papelotes de substância similar a ecstasy;
46 papelotes de substância similar a crack;
2 pedaços de crack;
3 pedaços de cocaína;
1 rolo de papel filme.
Veja vídeo da abordagem da vítima divulgada pelo G1

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